(ENEM PPL - 2015)
Vei, a Sol
Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. Já era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio. Macunaíma acordou tremendo, todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota para vê si não havia alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.
Então passou Caiuanogue, a estrela da manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu.
Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.
— Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se embora.
Assim nasceu a expressão que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus.
ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
O fragmento de texto faz parte do capítulo VII, intitulado "Vei, a Sol", do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pertencente à primeira fase do Modernismo brasileiro. Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar
resquícios do discurso naturalista usado pelos escritores do século XIX.
ausência de linearidade no tratamento do tempo, recurso comum ao texto narrativo da primeira fase modernista.
referência à fauna como meio de denunciar o primitivismo e o atraso de algumas regiões do país.
descrição preconceituosa dos tipos populares brasileiros, representados por Macunaíma e Caiuanogue.
uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional.
Gabarito:
uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional.
A) INCORRETA: já que o discurso naturalista do século XIX baseava-se muito em um determinismo científico, ou seja, as personagens eram guiadas e agiam não com base em uma vontade própria, mas de acordo com seu meio ou com características como a raça e o momento histórico, muito mais por instinto do que por racionalidade.
B) INCORRETA: por mais que os modernistas se propuseram a reinventar a forma de fazer literatura (prosa, poesia, teatro e afins), a linearidade do tempo nas prosas não se perdeu. Podemos verificar isso na própria narrativa, em que os fatos vão ocorrendo um após o outro, sendo que uma coisa só acontece após a outra ter se passado.
C) INCORRETA: no modernismo, principalmente na primeira fase, o que vemos não é o destaque da natureza como forma de evidenciar um atraso de certas regiões no país. Na verdade, o modernismo procura trazer elementos da natureza para construir heróis e espaços de aventura, situações que já eram aplicadas em outros países. Então, ao trazer Macunaíma e a vegetação, Mário de Andrade traz seu herói e o local por onde ele desbrava.
D) INCORRETA: nesse pequeno excerto, não conseguimos localizar essa descrição preconceituosa citada, pois poreconceituoso seria se dissesse "Macunaíma, preguiçoso como um indiozinho" ou outrro tipo de associação de imagens negativas com a figura do índio, o que não há. Tanto que Macunaíma é representado como herói.
E) CORRETA: nessa alternativa, é possível destacar os dois principais aspectos pedidos: 1) a caracterização do modernismo; e 2) como que o texto exemplifica isso. Caractertizar o modernismo é destacar que os seus escritores priorizavam uma linguagem simples, não rebuscada, voltada ao coloquial. Sabemos disso porque é explicado sobre o surgimento da expressão "Vá tomar banho!", uma expressão coloquial que é originada de uma situação também coloquial.