(ENEM - 2015)
Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio. As mulheres, principalmente as mortas do álbum, eram maravilhosas. Os homens, mais maravilhosos ainda, ah, difícil encontrar família mais perfeita. A nossa família, dizia a bela voz de contralto da minha avó. Na nossa família, frisava, lançado em redor olhares complacentes, lamentando os que não faziam parte do nosso clã. [...]
Quando Margarida resolveu contar os podres todos que sabia naquela noite negra da rebelião, fiquei furiosa. [...]
É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos. Mas Margarida seguia em frente: tio Maximiliano se casou com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não passava de um pilantra, a loirinha feiosa era riquíssima. Tia Consuelo? Ora, tia Consuelo chorava porque sentia falta de homem, ela queria homem e não Deus, ou o convento ou o sanatório. O dote era tão bom que o convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo. “E tem mais coisas ainda, minha queridinha”, anunciou Margarida fazendo um agrado no meu queixo. Reagi com violência: uma agregada, uma cria e, ainda por cima, mestiça. Como ousava desmoralizar meus heróis?
TELLES, L. F. A estrutura da bolha de sabão. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Representante da ficção contemporânea, a prosa de Lygia Fagundes Telles configura e desconstrói modelos sociais. No trecho, a percepção do núcleo familiar descortina um(a)
convivência frágil ligando pessoas financeiramente dependentes.
tensa hierarquia familiar equilibrada graças à presença da matriarca.
pacto de atitudes e valores mantidos à custa de ocultações e hipocrisias.
tradicional conflito de gerações protagonizado pela narradora e seus tios.
velada discriminação racial refletida na procura de casamentos com europeus.
Gabarito:
pacto de atitudes e valores mantidos à custa de ocultações e hipocrisias.
A) INCORRETA: pois, mesmo que o conteúdo dessa questão traga informações presentes no texto, ela não responde corretamente ao que se pede no enunciado. A alternativa, ao falar da dependência financeira, alude a apenas um dos casos da família, e não a percepção de núcleo familiar descrita por Lygia Fagundes Telles nesse excerto.
B) INCORRETA: A ideia de rigidez e tensão não está especificamente na hierarquia familiar pois, ainda que a avó esteja presente como matriarca, não se revela um conflito de gerações, ou uma questão de respeito aos mais velhos. A tensão descortinada no trecho deve-se à revelação de verdades a partir de uma figura que vem de fora para dentro da família, implodindo a teia de mentiras e segredos que sustenta a sólida (ainda que hipócrita) aparência do núcleo familiar da narradora.
C) CORRETA: No trecho da obra de Lygia Fagundes Telles, nota-se uma tentativa por parte da narradora-personagem de manter as aparências em relação a família. Ela, assim como sua avó, queria acreditar e fantasiava sobre um clã perfeito e totalmente dentro das tradições, não passível de qualquer crítica.
D) INCORRETA: A tensão focalizada nesse excerto se instaura quando uma agregada (externa) decide contar a todos os "podres" da família, considerada perfeita. Não há um conflito interno e de idades entre os tios e a narradora (ela inclusive os chama de "meus heróis"), e sim entre a imagem projetada sobre o "clã" através de uma teia de segredos e hipocrisia e a realidade, revelada por Margarida. A narradora, portanto, está do lado da avó e dos tios, e o conflito geracional não é o foco dessa passagem.
E) INCORRETA: uma vez que não há nada que permita atribuir um fundo racista à prática dos casamentos com europeus. Como o próprio trecho destacado revela, os interesses eram econômicos, e não de uma "purificação" da linhagem, se assim se poderia dizer. Além disso, a alusão a esse fato dos casamentos europeus é muito pontual, e não define o núcleo familiar como um todo psicologicamente percebido na narrativa de Telles.