(ENEM - 2015)
Palavras jogadas fora
Quando criança, convivia no interior de São Paulo com o curioso verbo pinchar e ainda o ouço por lá esporadicamente. O sentido da palavra é o de “jogar fora” (pincha fora essa porcaria) ou “mandar embora” (pincha esse fulano daqui). Teria sido uma das muitas palavras que ouvi menos na capital do estado e, por conseguinte, deixei de usar. Quando indago às pessoas se conhecem esse verbo, comumente escuto respostas como “minha avó fala isso”. Aparentemente, para muitos falantes, esse verbo é algo do passado, que deixará de existir tão logo essa geração antiga morrer.
As palavras são, em sua grande maioria, resultados de uma tradição: elas já estavam lá antes de nascermos. “Tradição”, etimologicamente, é o ato de entregar, de passar adiante, de transmitir (sobretudo valores culturais). O rompimento da tradição de uma palavra equivale à sua extinção. A gramática normativa muitas vezes colabora criando preconceitos, mas o fator mais forte que motiva os falantes a extinguirem uma palavra é associar a palavra, influenciados direta ou indiretamente pela visão normativa, a um grupo que julga não ser o seu. O pinchar, associado ao ambiente rural, onde há pouca escolaridade e refinamento citadino, está fadado à extinção?
É louvável que nos preocupemos com a extinção de ararinhas-azuis ou dos micos-leãodourados, mas a extinção de uma palavra não promove nenhuma comoção, como não nos comovemos com a extinção de insetos, a não ser dos extraordinariamente belos. Pelo contrário, muitas vezes a extinção das palavras é incentivada.
VIARO, M. E. Língua Portuguesa. n. 77, mar. 2012 (adaptado).
A discussão empreendida sobre o (des)uso do verbo “pinchar” nos traz uma reflexão sobre a linguagem e seus usos, a partir da qual compreende-se que
as palavras esquecidas pelos falantes devem ser descartadas dos dicionários, conforme sugere o título.
o cuidado com espécies animais em extinção é mais urgente do que a preservação de palavras.
o abandono de determinados vocábulos está associado a preconceitos socioculturais.
as gerações têm a tradição de perpetuar o inventário de uma língua.
o mundo contemporâneo exige a inovação do vocabulário das línguas.
Gabarito:
o abandono de determinados vocábulos está associado a preconceitos socioculturais.
A) INCORRETA: pois o texto não menciona isso, mas, pelo contrário, seu ponto de vista é de criticar os agentes da norma culta por facilitar o processo de extinção das palavras e questionar as pessoas sobre a despreocupação com a extinção de palavras.
B) INCORRETA: pois a citação da extinção de alguns animais nativos é uma forma de comparação do texto para que se pense nas palavras em algo tão valioso quanto os animais, palavras dignas de receber o mesmo questionamento e defesa na sua extinção.
C) CORRETA: uma vez que é associado no texto a extinção das palavras ao sentimento de não pertencimento e a não valorização de um grupo social em relação ao outro, razão pela qual a gramática normativa muitas vezes rechaça a aplicação e uso dessas formas, proibição essa que vai sendo reproduzida e encorajada por muitos falantes da língua.
D) INCORRETA: pois o próprio texto apresenta um caso em que a geração anterior perpetuou o uso da palavra, mas que a geração recente quer extingui-la. Logo, as gerações podem ser responsáveis por perpetuar e por extinguir certo itens do inventário de uma língua.
E) INCORRETA: não está toda errada, mas não é a que mais se adequa às informações do texto. Os argumentos do autor apontam para o fato de que são fatores sociais os que mais determinam o rechaço e consequente extinção de uma palavra, e não uma pressão do "mundo contemporâneo". O que o autor está discutindo é a problemática da desvalorização do léxico por motivos extralinguísticos, e não necessariamente uma consequência natural do mundo contemporâneo.