(ENEM - 2015)
Cântico VI
Tu tens medo de
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia,
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1963. (fragmento)
A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à condição humana,
a sublimação espiritual graças ao poder de se emocionar.
o desalento irremediável em face do cotidiano repetitivo.
o questionamento cético sobre o rumo das atitudes humanas.
a vontade inconsciente de perpetuar-se em estado adolescente.
um receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade das coisas.
Gabarito:
a sublimação espiritual graças ao poder de se emocionar.
A) CORRETA: O poema, em sua reflexão filosófica sobre angústia do fim ("tu tens medo de morrer") oferece um contraponto "libertador", ou seja, a possibilidade de uma transcendência, uma fuga dessa angústia pela morte. A percepção da renovação constante ("és sempre o mesmo/és sempre outro") por meio do sentimento ("amor", "tristeza", "dúvida", "desejo") - o "poder de se emocionar" - é o que permite ao ser mortal (o "tu") o acesso à eternidade - a "sublimação espiritual", a transcendência mencionada.
B) INCORRETA: O poema não demonstra o questionamento frente ao desalento relacionado com os hábitos repetitivos do cotidiano. É retratado sobre o medo de acabar algo na vida do eu-lírico. Não temos uma perspectiva de "desalento irremediável", pois o medo é colocado como um problema que pode ser resolvido, por meio da consciência do sentimento renovador. O final do poema revela que o problema não é insuperável ("e então serás eterno").
C) INCORRETA: Não é observada a presença do ceticismo porque há uma renovação diária dos sentimentos apresentados pelo eu-lírico, caracterizando como um estado de mudança. O questionamento sugerido no poema pelo contrário demonstra a possibilidade de renovação espiritual e da chegada a planos de transcendência e eternidade revela uma visão atravessada pela crença em algo superior ao ser humano que interfere em sua experiência vital.
D) INCORRETA: Não é revelado um desejo pela conservação da juventude, da adolescência - mas sim um medo de morrer. O eu lírico não hierarquiza juventude e velhice, e não delimita essa angústia a determinada faixa de idade.
E) INCORRETA: A questão da ancestralidade não está evidente no Cântico IV. Cecília não se dirige a um ser humano histórico, seus antepassados, um dilema geracional, mas sim a um "tu" no presente, mesmo que seja universal. Em segundo lugar, e mais importante, a afirmação de que o receio está diante do imprevisível é incorreta: o medo de "acabar" (morrer) é, na verdade, o medo da única certeza humana que é a morte. É justamente o "não confrontar a imprevisibilidade" que faz do ser humano alguém limitado e receoso.