(ENEM - 2017)
Naquela manhã de céu limpo e ar leve, devido à chuva torrencial da noite anterior, sai a caminhar com o sol ainda escondido para tomar tenência dos primeiros movimentos da vida na roça. Num demorou nem um tiquinho e o cheiro intenso do café passado por Dona Linda me invadiu as narinas e fez a fome se acordar daquela rema letárgica derivada da longa noite de sono. Levei as mãos até a água que corria pela bica feita de bambu e o contato gelado foi de arrepiar. Mas fui em frente e levei as mãos em concha até o rosto. Com o impacto, recuei e me faltou o fôlego por alguns instantes, mas o despertar foi imediato. Já aceso, entrei na cozinha na buscação de derrubar a fome e me acercar do aconchego do calor do fogão à lenha. Foi quando dei reparo da figura esguia e discreta de uma senhora acompanhada de um garoto aparentando uns cinco anos de idade já aboletada na ponta da mesa em proseio íntimo com a dona da casa. Depois de um vigoroso “Bom dia!”, de um vaporoso aperto de mãos nas apresentações de praxe, fiquei sabendo que Dona Flor de Maio levava o filho Adão para tratamento das feridas que pipocavam por seu corpo, provocando pequenas pústulas de bordas avermelhadas.
GUIÃO, M. Disponível em: www.revistaecologico.com.br. Acesso em: 10 mar. 2014 (adaptado).
A variedade linguística da narrativa é adequada à descrição dos fatos. Por isso, a escolha de determinadas palavras e expressões usadas no texto está a serviço da
localização dos eventos de fala no tempo ficcional.
composição da verossimilhança do ambiente retratado.
restrição do papel do narrador à observação das cenas relatadas.
construção mística das personagens femininas pelo autor do texto.
caracterização das preferências linguísticas da personagem masculina.
Gabarito:
composição da verossimilhança do ambiente retratado.
A) INCORRETA: os eventos de fala são localizados em uma situação onde a variação linguística está ocorrendo, mas esta não está a serviço deles, esse papel é exercido pelas aspas, e os adjetivos "vaporoso" e "vigoroso" são o que dão pertinencia e coerência, cracterísticas da verossimilhança, ao ambiente em que a cena ocorre, a cozinha de uma casa na roça na hora do café da manhã.
B) CORRETA: uma vez que a utilização dos vocábulos interioranos dá pertinência, harmoniza o ambiente narrado, a roça. O fragmento apresentado na questão descreve um ambiente e uma cena interiorana. As construções feitas pelo autor remetem à uma linguagem elaborada e próxima da norma padrão. Contudo, em alguns momentos, percebemos o uso de certos vocábulos que colaboram para a construção do contexto e fogem um pouco aos usados canonicamente na língua. Exemplos como "tenência","roça", "buscação", dentre outros, nos informam de uma aliança do escritor com o ambiente e contexto que está descrevendo: o interiorano. Isso mostra uma decisão linguística que busca apresentar a variação linguística que compõe aquele extrato social. Dessa maneira, a alternativa correta é a letra [B]: composição da verossimilhança do ambiente retratado.
C) INCORRETA: pois o narrador não apenas observa as cenas, mas participa ativamente delas. Ele se desloca, lava o rosto, entra na cozinha, vê as pessoas, etc. Seu papel não é de um narrador observador, mas sim personagem: o que se revela na primeira pessoa dos verbos que conduzem o enredo desse excerto. Há uma subjetividade do narrador, uma percepção ativa e inserida nas cenas descritas.
D) INCORRETA: já que não há uma construção mística das mulheres no texto, elas são apenas descritas por seu aspecto físico, através de palavras como "esguia" e "discreta".
E) INCORRETA: uma vez que não se tratam de preferências linguísticas, mas sim de um modo de falar adotado naturalmente pelo homem, que mora na roça.