(ENEM - 2017)
O homem disse, Está a chover, e depois, Quem é você, Não sou daqui, Anda à procura de comida, Sim, há quatro dias que não comemos, E como sabe que são quatro dias, É um cálculo, Está sozinha, Estou com o meu marido e uns companheiros, Quantos são, Ao todo, sete; Se estão a pensar em ficar conosco, tirem daí o sentido, já somos muitos, Só estamos de passagem, Donde vêm, Estivemos internados desde que a cegueira começou, Ah, sim, a quarentena, não serviu de nada. Porque diz isso, Deixaram-nos sair, Houve um incêndio e nesse momento percebemos que os soldados que nos vigiavam tinham desaparecido, E saíram, Sim, Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar, toda a gente está cega, Toda a gente, a cidade toda, o país,
SARAMAGO, J. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Cia. das Letras. 1995.
A cena retrata as experiências das personagens em um país atingido por uma epidemia. No diálogo, a violação de determinadas regras de pontuação
revela uma incompatibilidade entre o sistema de pontuação convencional e a produção do gênero romance.
provoca uma leitura equivocada das frases interrogativas e prejudica a verossimilhança.
singulariza o estilo do autor e auxilia na representação do ambiente caótico.
representa uma exceção às regras do sistema de pontuação canônica.
colabora para a construção da identidade do narrador pouco escolarizado.
Gabarito:
singulariza o estilo do autor e auxilia na representação do ambiente caótico.
A) INCORRETA: não há uma norma estabelecidade sobre como um romance deve ser pontuado. Na verdade, tem algo que foi estabelecido pelo senso comum do que seria mais agradável estaticamente. No entanto, como vimos que houve uma sequência textual mesmo não se utilizando a pontuação convencional, logo, não há uma incompatibilidade.
B) INCORRETA: não é impossível entender as frases exclamativas e interrogativas desse texto. Isso porque, mesmo que a pontuação correta não esteja lá, sabemos pela sequência do texto quando se trata de uma pergunta, quando se trata de uma afirmação, etc.
C) CORRETA: O prémio Nobel da Literatura português inovou na maneira como utiliza o ponto final e a vírgula (que ele prefere chamar de sinais de pausa) marcando a frase com outro ritmo dado pela oralidade, um ritmo prosódico que é típico de quem fala a língua. No excerto do enunciado, o início da fala de cada personagem é assinalado apenas por uma capitular, formando diálogos dispostos em sequência acelerada coerente com o ambiente caótico em que decorre a narrativa.
D) INCORRETA: porque é uma afirmação incompleta em relação ao que foi colocado no texto. Como percebe-se a pontuação não convencional é marca estilística do próprio autor. A situação caótica que é evidente pelo traço estilístico da escrita se dá por meio de diálogos entrecortados que, postos em um período longo, são marcados pela letra maiúscula sem que haja ponto final, simbolizado como a marca singular da produção da escrita do autor.
E) INCORRETA: a pontuação não cria a ideia de um escritor pouco escolarizado, isso porque vemos que foram utilizadas construçõesmais rebuscadas da língua portuguesa, como em "Os vossos soldados devem ter sido dos últimos a cegar".