(ENEM - 2017)
Declaração de amor
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa Ela não é fácil. Não é maleável. [...] A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes a galope. Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo em minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega. Se eu fosse muda e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas, como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
LISPECTOR. C. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro Rocco, 1999 (adaptado).
O trecho em que Clarice Lispector declara seu amor pela língua portuguesa, acentuando seu caráter patrimonial e sua capacidade de renovação, é:
“A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.”
“Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.”
“Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.”
“Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada.”
“Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.”
Gabarito:
“Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.”
A) INCORRETA: pois tal afirmação não está relacionada com o acentuado caráter patrimonial e sua capacidade de renovação, além de não evidenciar de forma clara o que poderia ser sugestivo em relação ao caráter patrimonial.
B) CORRETA: pois acentua a questão de que apenas o legado tradicional da literatura comoniana não é suficiente para representar a renovação, ficando subentendido que há outras obras que buscam trazer a capacidade de renovação da língua portuguesa.
C) INCORRETA: não há nada que indique que Clarice está se referindo à língua portuguesa. Nesse trecho, ela faz um comentário mais geral sobre o poder da ESCRITA (não se refere diretamente à língua) como forma vivificadora de ideias.
D) INCORRETA: pois foi abordado pela autora declara o encantamento pela língua portuguesa.
E) INCORRETA: a autora busca evidenciar de forma enfática a questão da abordagem do português, porém não ligado com a questão de considerá-la como patrimônio e capacidade de renovação.