(ENEM - 2017)
O farrista
Quando o almirante Cabral
Pôs as patas no Brasil
O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris.
Quando ele voltou de viagem
O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:
“Não faz mal, isto é boa gente,
Vou arejar outra vez.”
O anjo transpôs a barra,
Diz adeus a Pernambuco,
Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim
Mas deu um vento no anjo,
Ele perdeu a memória...
E não voltou nunca mais.
MENDES. M. História do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1992
A obra de Murilo Mendes situa-se na fase inicial do Modernismo, cujas propostas estéticas transparecem, no poema, por um eu lírico que
configura um ideal de nacionalidade pela integração regional.
remonta ao colonialismo assente sob um viés iconoclasta.
repercute as manifestações do sincretismo religioso.
descreve a gênese da formação do povo brasileiro.
promove inovações no repertório linguístico.
Gabarito:
remonta ao colonialismo assente sob um viés iconoclasta.
A) INCORRETA: Mesmo que seja tratado a questão das questões referentes ao Brasil não há um trato de integração regional, mas remonta ao passado colonial e de dependência em relação à metrópole portuguesa.
B) CORRETA: O texto acima apresenta uma desconstrução da imagem do anjo, contestando a um ideário tradicional da figura angelical defendido pela igreja católica, ou seja, de um anjo puro, intocável e sem comportamentos humanizados, como é verificável nos fragmentos:"O anjo da guarda dos índios/Estava passeando em Paris.";"O anjo transpôs a barra, Diz adeus a Pernambuco".
C) INCORRETA: não há um destaque religioso no texto.
D) INCORRETA: o eu lirico pincela sim a formação do povo brasileiro, mas apenas enquanto caminho para chegar ao colonialismo, foco principal do poema. Além disso, não há a descrição propriamente dita do processo de gênese do povo brasileiro, mas sim uma narração sobre esses processos de colonização sob um viés iconoclasta (considerando a degradação da imagem dos anjos da guarda ao longo do poema todo), sobre a influência dos povos europeus sobre o Brasil.
E) INCORRETA: A obra de Murilo Mendes, apesar de pertencer a uma fase mais experimental na lingaugem modernista, não apresenta nenhuma inovação linguística. O termo "vuco vuco" é apenas na linguagem popular, equivaleria a: fuzuê, fuzaca, rebuliço( sinônimo de confusão).