(ENEM PPL - 2013)
TEXTO I
Não é sem razão que o ser humano procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de propriedade.
LOCKE, J. Segundo tratado sobre governo: ensaio relativo à verdadeira origem, extensão e objetivo do governo civil. São Paulo: Abril Cultural, 1978 (adaptado).
TEXTO II
Para que essas classes com interesses econômicos em conflitos não destruam a si mesmas e à sociedade numa luta estéril, surge a necessidade de um poder que, na aparência, esteja acima da sociedade, que atenue o conflito, mantenha-o dentro dos limites da ordem.
ENGELS, F. In: GALLINO, L. Dicionário de sociologia. São Paulo: Paulus, 2005 (adaptado).
Os textos expressam duas visões sobre a forma como os indivíduos se organizam socialmente. Tais visões apontam, respectivamente, para as concepções:
Liberal, em defesa da liberdade e da propriedade privada — Conflituosa, exemplificada pela luta de classes.
Heterogênea, favorável à propriedade privada — Consensual, sob o controle de classes com interesses comuns.
Igualitária, baseada na filantropia — Complementar, com objetivos comuns unindo classes antagônicas.
Compulsória, na qual as pessoas possuem papéis que se complementam — Individualista, na qual as pessoas lutam por seus interesses.
Libertária, em defesa da razão humana — Contraditória, na qual vigora o estado de natureza.
Gabarito:
Liberal, em defesa da liberdade e da propriedade privada — Conflituosa, exemplificada pela luta de classes.
a) Correta. Liberal, em defesa da liberdade e da propriedade privada — Conflituosa, exemplificada pela luta de classes.
Como se expressa no enunciado, Locke, como um dos fundadores do liberalismo político, defende uma sociedade liberal, na qual sejam garantidos a liberdade e a propriedade privada; o contrato é estabelecido para "a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de propriedade". Engels, por sua vez, como um dos fundadores do marxismo, entende um tipo de um sociedade mataerialista, permeada pelo constante conflito entre classes, os burgueses e os proletários.
b) Incorreta. Heterogênea, favorável à propriedade privada — Consensual, sob o controle de classes com interesses comuns.
Embora Locke apresenta uma sociedade favorável à propriedade privada, não há uma noção óbvia de heterogeneidade — e também homogeneidade — no texto, nem em suas ideias, embora haja presença de ambas as características no que ele defende. Todavia, a alternativa apresenta um claro erro quanto à interpretação de Engels, ao apresentar uma sociedade consensual, a partir do controle de classes com interesses comuns, pois o autor apresenta uma noção conflituosa, de guerra de classes e interesses na sociedade.
c) Incorreta. Igualitária, baseada na filantropia — Complementar, com objetivos comuns unindo classes antagônicas.
Locke não defende uma sociedade igualitária, fundamentada na filantropia, pois a sua ideia de igualdade relaciona-se com as aspectos isonômicos, isto é, uma igualdade perante a lei; a sociedade de Locke baseia-se no trabalho, e, a partir deste, é possível uma desigualdade social e econômica. Engels não defende uma noção complementar da sociedade, em que se una classes antagônicas por objetivos comuns; ele compreende uma sociedade conflituosa, em que essas classes antagônicas estão em constante conflito de interesses.
d) Incorreta. Compulsória, na qual as pessoas possuem papéis que se complementam — Individualista, na qual as pessoas lutam por seus interesses.
Locke não defende uma sociedade compulsória, pois, como um dos fundadores do liberalismo político, advoga pela liberdade, na qual os cidadãos aceitam as normas por consentimento e boa vontade, em busca de segurança, conforto e paz. Engels não defende uma noção individualista da sociedade, pois são conflitos de classes, não meramente de indivíduos.
e) Incorreta. Libertária, em defesa da razão humana — Contraditória, na qual vigora o estado de natureza.
O libertarianismo, como filosofia política, surge posteriormente, e não expressa os ideias de Locke, tampouco há uma defesa da razão humana, tendo em mente que a sociedade de Locke é fundada sob a ideia de indivíduos racionais. Não há noção de estado de natureza em Engels, pois o homem já é estabelecido a partir de suas relações sociais; não existe um estado hipotético em que os homens viviam em condições naturais para o filósofo.