(ENEM PPL - 2013)
O contrário de um fato qualquer é sempre possível, pois, além de jamais implicar uma contradição, o espírito o concebe com a mesma facilidade e distinção como se ele estivesse em completo acordo com a realidade. Que o Sol não nascerá amanhã é tão inteligível e não implica mais contradição do que a afirmação de que ele nascerá. Podemos em vão, todavia, tentar demonstrar sua falsidade de maneira absolutamente precisa. Se ela fosse demonstrativamente falsa, implicaria uma contradição e o espírito nunca poderia concebê-la distintamente, assim como não pode conceber que 1 + 1 seja diferente de 2.
HUME, D. Investigação acerca do entendimento humano. São Paulo: Nova Cultural, 1999 (adaptado).
O filósofo escocês David Hume refere-se a fatos, ou seja, a eventos espaço-temporais, que acontecem no mundo. Com relação ao conhecimento referente a tais eventos, Hume considera que os fenômenos
acontecem de forma inquestionável, ao serem apreensíveis pela razão humana.
ocorrem de maneira necessária, permitindo um saber próximo ao de estilo matemático.
propiciam segurança ao observador, por se basearem em dados que os tornam incontestáveis.
devem ter seus resultados previstos por duas modalidades de provas, com conclusões idênticas.
exigem previsões obtidas por raciocínio, distinto do conhecimento baseado em cálculo abstrato.
Gabarito:
exigem previsões obtidas por raciocínio, distinto do conhecimento baseado em cálculo abstrato.
Em sua Investigação acerca do entendimento humano, Hume aponta que o contrário de um fenômeno conhecido é tão possível quanto o próprio fenômeno, uma vez que não há como provar o conhecimento sobre os fatos do mundo (fenômenos da natureza, etc). O autor afirma que o conhecimento fundamentado em cálculos abstratos é necessário, enquanto o conhecimento sobre os fenômenos é contingente. Isso significa que não se pode negar nem confirmar qualquer ideia sobre os fenômenos, pois não há garantia de que eles se comportarão da mesma maneira que normalmente o fazem, enquanto que os cálculos abstratos garantem sua existência através da prova demonstrativa e não podem ser concebidos diferentemente (pois haveria, assim, uma contradição).
Uma proposição necessária é aquela que não pode ser falsa. É uma proposição verdadeira em todas as possibilidades que descrevem coisas que poderiam ter acontecido, sendo verdadeira em todos os mundos possíveis (necessariamente verdadeira). Ex: 1 + 1 = 2; não pode ser posto de outra maneira, como 1 + 1 = 3, pois seria uma inverdade.
Uma proposição contingente é aquela que pode ser ou não. Sua existência não é necessária, nem impossível: sua realidade não pode ser demonstrada nem negada em termos definitivos (não é necessariamente verdadeira nem necessariamente falsa). Ex: O sol vai nascer amanhã; pode ser tido de outra forma, como “o sol não vai nascer amanhã”, pois não há garantias acerca do próprio fenômeno (não se pode estabelecer uma contradição a um fato que não tem parâmetro garantido de verdade).
e) Correta. exigem previsões obtidas por raciocínio, distinto do conhecimento baseado em cálculo abstrato.
As previsões ocorrem por um raciocínio indutivo, por análise dos fatos experienciáveis, não por um conhecimento fundamentado no cálculo abstrato, que leve em consideração apenas leis gerais e universais, sem relação com a empiria.
a) Incorreta. acontecem de forma inquestionável, ao serem apreensíveis pela razão humana.
Essa perspectiva reflete uma posição racionalista, ao entender que haja conteúdos inquestionáveis apreensíveis pela razão humana, uma noção que se distingue do empirismo radical de Hume. Este não aceita nenhum conteúdo inquestionável, pois todo conhecimento deve ser apreendido e testado pela experiência e não pela razão.
b) Incorreta. ocorrem de maneira necessária, permitindo um saber próximo ao de estilo matemático.
Igualmente, essa noção reflete uma posição racionalista; para Hume, não existem fatos necessários, pois a necessidade é um conceito retirado do hábito e do costume de determinados fatos ocorrerem sempre, mas isso não significa que possa ocorrer da mesma forma sempre. A matemática, para Hume, também retira os seus conceitos da experiência.
c) Incorreta. propiciam segurança ao observador, por se basearem em dados que os tornam incontestáveis.
Não há dados incontestáveis para Hume, pois, como empirista radical, compreende que todos os dados devem ter sustentação empírica, o que os tornam prováveis.
d) Incorreta. devem ter seus resultados previstos por duas modalidades de provas, com conclusões idênticas.
Para Hume, há apenas uma modalidade de prova, a experiência, a única fonte de conhecimento, segundo ele.