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Questão 28748

ENEM 2012
Português

(ENEM PPL - 2012)

Sambinha

Vêm duas costureirinhas pela rua das Palmeiras.
Afobadas braços dados depressinha
Bonitas, Senhor! que até dão vontade pros homens da rua.
As costureirinhas vão explorando perigos…
Vestido é de seda.
Roupa-branca é de morim.
Falando conversas fiadas
As duas costureirinhas passam por mim.
— Você vai?
— Não vou não!
Parece que a rua parou pra escutá-las.
Nem trilhos sapecas
Jogam mais bondes um pro outro.
E o Sol da tardinha de abril
Espia entre as pálpebras sapiroquentas de duas nuvens.
As nuvens são vermelhas.
A tardinha cor-de-rosa.
Fiquei querendo bem aquelas duas costureirinhas…
Fizeram-me peito batendo
Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!
Isto é…
Uma era ítalo-brasileira.
Outra era áfrico-brasileira.
Uma era branca.
Outra era preta.

ANDRADE, M. Os melhores poemas. São Paulo: Global, 1988.

Os poetas do Modernismo, sobretudo em sua primeira fase, procuraram incorporar a oralidade ao fazer poético, como parte de seu projeto de configuração de uma identidade linguística e nacional. No poema de Mário de Andrade esse projeto revela-se, pois:

A

o poema capta uma cena do cotidiano — o caminhar de duas costureirinhas pela rua das Palmeiras — mas o andamento dos versos é truncado, o que faz com que o evento perca a naturalidade.

B

a sensibilidade do eu poético parece captar o movimento dançante das costureirinhas — depressinha — que, em última instância, representam um Brasil de “todas as cores”.

C

o excesso de liberdade usado pelo poeta ao desrespeitar regras gramaticais, como as de pontuação, prejudica a compreensão do poema.

D

a sensibilidade do artista não escapa do viés machista que marcava a sociedade do início do século XX, machismo expresso em “que até dão vontade pros homens da rua”.

E

o eu poético usa de ironia ao dizer da emoção de ver moças “tão modernas, tão brasileiras”, pois faz questão de afirmar as origens africana e italiana das mesmas.

Gabarito:

a sensibilidade do eu poético parece captar o movimento dançante das costureirinhas — depressinha — que, em última instância, representam um Brasil de “todas as cores”.



Resolução:

A) INCORRETA: o andamento dos versos não é truncado, mas, pelo contrário, a oralidade se observa por meio da sequencialidade narrativa que o poema constrói ao contar a história.

B) CORRETA:

C) INCORRETA: não se observa um prejuízio do sentido do poema por conta das marcas de oralidade, mas, pelo contrário, essa marcação possibilita que aquilo que está escrito se aproxime mais ainda do oral.

D) INCORRETA: a questão do viés machista não é importante no que diz respeito à construção da oralidade no poema, mas, pelo contrário, é o modo como o autor assume essa posição e o modo como é estruturado o texto que observaremos esses traços narrativos, que possuem certo teor de machismo.

E) INCORRETA: o poeta foca menos no lugar de onde as mulheres vieram e mais em quem elas são: brasileiras. Esse é o projeto modernista, que consiste em pegar as características diversas que o país possui (mulheres estrangeiras, nativas, com descendência de escravos e de europeus) e transformar isso em uma identidade.

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