(ENEM - 2012)
Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará.
Ele está comprometido de monge.
De tarde deambula no azedal entre torsos de
cachorros, trampas, trapos, panos de regra, couros,
de rato ao podre, vísceras de piranhas, baratas
albinas, dálias secas, vergalhos de lagartos,
linguetas de sapatos, aranhas dependuradas em
gotas de orvalho etc. etc.
Pote Cru, ele dormia nas ruínas de um convento
Foi encontrado em osso.
Ele tinha uma voz de oratórios perdidos.
BARROS, M. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Ao estabelecer uma relação com o texto bíblico nesse poema, o eu lírico identifica-se com o Pote Cru porque
entende a necessidade de todo poeta ter voz de oratórios perdidos.
elege-o como pastor a fim de ser guiado para a salvação divina.
valoriza nos percursos do pastor a conexão entre as ruínas e a tradição.
necessita de um guia para a descoberta das coisas da natureza.
acompanha-o na opção pela insignificância das coisas.
Gabarito:
acompanha-o na opção pela insignificância das coisas.
A) INCORRETA: pois, além de generalizar ("todo poeta") - o que não cabe em literatura -, marca uma necessidade que não é apontada no poema.
B) INCORRETA: pois é dito sobre ser guiado para a salvação; o eu-lírico diz que será guiado, mas nada na poética aponta que seja para a salvação.
C) INCORRETA: o uso da palavra “valorizar” juntamente com a relação “ruínas e tradição” é problemático. Há uma relação entre esses dois mundos (a descrição dos caminhos de Pote Cru e o texto bíblico), mas essa relação não é de valorização, mas sim uma depreciação entre esses dois elementos. Sabemos disso, pois, ao fazer um paralelo entre os dois textos, no universo bíblico vemos a valorização do ambiente e dos elementos pelo eu lírico, enquanto neste poema vemos o uso de referências negativas e não muito agradáveis (a imagem do “rato podre”, das “vísceras de piranhas”, das “baratas”).
D) INCORRETA: pois se afirma a necessidade de um guia para a descoberta da natureza, mas o poema mostra que a descoberta se faz por si só, sendo Pote Cru apenas um observador conjunto.
E) CORRETA: A afirmativa é a mais adequada, dada a relação que Manoel de Barros tem com a poética de ressignificação das coisas comuns em objetos do poetizar. É preciso conhecer sobre o autor e sua obra em geral para saber no que focar ao ler as alternativas. As referências que ele faz no interior do poema são a elementos que não costumam aparecer neste gênero literário, como as baratas, ratos, o podre, etc. É isso que distancia esse poema das vanguardas europeias, que buscavam a todo custo fazer relações com o belo, enquanto no poema o não agradável é colocado em primeiro plano.