(ENEM - 2012)
Ai, palavras, ai, palavras
Que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
Principia a vossa porta:
O mel do amor cristaliza
Seu perfume em vossa rosa;
Sois o sonho e sois a audácia,
Calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! Com letras se elabora...
e dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil, como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).
O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem:
A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo poder corrosivo das palavras.
As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado aos significado das palavras.
O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a grandeza da luta do homem pela vida.
Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações perpetuar seus valores e suas crenças.
Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance limitado pelas intenções e gestos.
Gabarito:
As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado aos significado das palavras.
a) Alternativa incorreta. o erro central está em afirmar tão categoricamente que as palavras têm poder corrosivo, isto é, de destruir, minar. Perceba que nos versos "Principia a vossa porta: / O mel do amor cristaliza / Seu perfume em vossa rosa; / Sois o sonho e sois a audácia, / Calúnia, fúria, derrota..." há a revelação do poder para o bem (mel do amor, perfume e sonho são palavras que evidenciam isso) e para o mal (calúnia, fúria e derrota são termos que nos dizem isso). Ou seja, vemos que existem vários lados ou sentidos que as palavras podem assumir, não somente o corrosivo.
b) Alternativa correta. "Sois o sonho e sois a audácia,/ Calúnia, fúria, derrota...". Nesse trecho, temos a palavra como estabelecedora das experiências humanas, incluindo suas relações.
c) Alternativa incorreta. O eu-lírico do poema denota às palavras força e fragilidade necessárias para expressar as questões humanas.
d) Alternativa incorreta. não podemos afirmar que as palavras são ressignificadas ao longo do tempo e que é isto que permite que ocorram as perpetuações de valores e crenças. O que o trecho diz é que as palavras estão presentes, desempenhando um papel importante, nas mudanças ocorridas, algo demonstrado pelo trecho "Reis, impérios, povos, tempos, / pelo vosso impulso rodam...". Ou seja, o eu-lírico está versando sobre o papel central das palavras nas mudanças sociais, mas não podemos observar menções à perpetuação de crenças ou mesmo de ressignificação.
e) Alternativa incorreta. A linguagem é ilimitada devido sua potência.