(UNICAMP - 2013 - 2ª FASE)
Ocupavam-se em descobrir uma enorme quantidade de objetos. Comunicaram baixinho um ao outro as surpresas que os enchiam. Impossível imaginar tantas maravilhas juntas. O menino mais novo teve uma dúvida e apresentou-a timidamente ao irmão. Seria que aquilo tinha sido feito por gente? O menino mais velho hesitou, espiou as lojas, as toldas iluminadas, as moças bem-vestidas. Encolheu os ombros. Talvez aquilo tivesse sido feito por gente. Nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão. Provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. Sim, com certeza as preciosidades que se exibiam nos altares da igreja e nas prateleiras das lojas tinham nomes. Puseram-se a discutir a questão intricada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência. Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças estranhas que elas porventura encerrassem.
(Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2012, p.82.)
Sinha Vitória precisava falar. Se ficasse calada, seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer que era forte, e a quentura medonha, as árvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silêncio não valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se, esqueceu os objetos próximos, os espinhos, as arribações, os urubus que farejavam carniça. Falou no passado, confundiu-se com o futuro. Não poderiam voltar a ser o que já tinham sido?
(Idem, p.120.)
a) O contraste entre as preciosidades dos altares da igreja e das prateleiras das lojas, no primeiro excerto, e as árvores transformadas em garranchos, no segundo, caracteriza o conflito que perpassa toda a narrativa de Vidas secas. Em que consiste este conflito?
b) No primeiro excerto, encontra-se posta uma questão recorrente em Vidas secas: a relação entre linguagem e mundo. Explique em que consiste esta relação na passagem acima.
Gabarito:
Resolução:
A) Por mais que em um primeiro momento essa relação não se demonstre conflituosa, há um embate entre a realidade de dificuldades daquela família (precariedade de vida) e o mundo que se externa em relação a essa realidade. Vemos que isso reflete numa contraposição forte entre o mundo da seca, fator determinante do destino das personagens, e o mundo em que a água corre e a seca não é um problema – algo que as personagens não conseguem nem expressar. Por essa razão, no momento em que os dois trechos são confrontados, vemos, de um lado, uma realidade cheia de objetos (realidade não vivida pelas personagens de Graciliano Ramos) enquanto, no outro lado, se vê a pobreza da realidade vivida, de plantas secas, imobilidade e silêncio.
B) A relação da linguagem e do mundo se dá muito em razão da privação da linguagem a qual as personagens foram submetidas, impacto mais profundo de todos. Não bastasse isso, a linguagem que eles possuem é uma linguagem simplória, incapaz de explicar aquilo que é desconhecido. Isso significa que as personagens não possuem o poder da linguagem, muito menos têm ciência de sua existência, capaz de nomear as coisas extraordinárias que observam além do mundo em que vivem.