(UEL 2011)
Doping pode ser compreendido como a utilização de substâncias ou método que possa melhorar o desempenho esportivo e atente contra a ética esportiva em determinado tempo e lugar, com ou sem prejuízo à saúde do esportista. Em uma época em que as ciências do esporte aportam cada vez mais decisivamente elementos para a melhoria do desempenho esportivo dos praticantes de esporte de alto rendimento, em particular, e de atividades físicas, em geral, ganham em importância discussões acerca da utilização de metodologias biomoleculares e substâncias em suas mais amplas aplicações. Quer do ponto de vista sanitário ou ético, o doping genético tem suscitado debates tão intensos quanto questionáveis do ponto de vista científico. A questão que se coloca consiste em indagar se o recurso obtido com tecnologias biomoleculares se choca com a ideia de espírito esportivo, essência do Olimpismo, pautado pela busca do equilíbrio entre corpo, mente e espírito.
Adaptado de: RAMIREZ, A. ; RIBEIRO, Á. Doping genético e esporte.
Com base no texto, na teoria de Habermas e considerando as implicações éticas envolvidas nas disputas entre atletas, assinale a alternativa correta.
A utilização de terapias genéticas em atletas, por se assemelhar a uma dotação genética, não intencional, similar à da natureza, pode dispensar pressupostos éticos.
Por desconsiderar a utilização de drogas químicas, o uso do doping genético é eticamente aceitável no esporte, já que implica o aprimoramento genético da espécie.
O fato de um atleta ter sido submetido à terapia genética rompe com as condições de simetria entre os competidores, pressuposto ético básico das atividades esportivas.
A ideia de igualdade entre os atletas nas competições representa uma ficção, já que a vitória é a demonstração da real desigualdade entre eles, fator que legitimaria, do ponto de vista ético, o doping genético.
A igualdade dada pela indisponibilidade da natureza é fator ético que proíbe novas possibilidades genéticas, inviabilizando o grau de aperfeiçoamento moral que o ser humano poderia alcançar.
Gabarito:
O fato de um atleta ter sido submetido à terapia genética rompe com as condições de simetria entre os competidores, pressuposto ético básico das atividades esportivas.
a) Incorreta. A dotação genética carrega consigo a carga da intencionalidade, ou seja, visa à consecução de um fim ou propósito que está relacionado à esfera da preferência de terceiros. A dotação genética, manipulada em razão de interesses de terceiros, não é similar à forma indisponível que compete à natureza, logrando êxito ou não, assegurar as condições de existência de um ser vivo.
b) Incorreta. Mesmo que o argumento do aprimoramento genético possa soar como útil do ponto de vista técnico, não há, do ponto de vista ético, argumento favorável que lhe assegure fundamentação e legitimidade. A utilização de técnicas que interfiram no patrimônio genético não encontra assentimento, em Habermas, de uma possível justificação ética. Antes, vê tais procedimentos com certa reserva e ceticismo, já que os mesmos estão tornando disponíveis aquilo que a natureza, ao manter indisponível, assegurava como base fundante da igualdade e simetria entre os seres humanos.
c) Correta. Parte-se do pressuposto de que o desconhecimento da determinação genética, indisponível até então pela natureza, alicerça-se como elemento fundamental da simetria e igualdade dos competidores nas atividades esportivas. A alteração genética, determinada previamente de forma intencional, acaba alterando as condições simétricas dos competidores, condição fundamental para toda e qualquer competição esportiva.
d) Incorreta. A igualdade não é uma ficção, mas um conceito derivado da indisponibilidade da natureza em relação aos quesitos que determinam geneticamente os seres humanos. A vitória, enquanto demonstração da desigualdade dos competidores, não reside no fator genético, antes, em fatores de preparação, condicionamento e treinamento empenhado pelos atletas quanto aos propósitos que se deseja alcançar. O doping genético, como proposto, pode, de fato, levar a uma desigualdade real do ponto de vista da partida da competição e não do resultado da mesma.
e) Incorreta. Não há, da parte de Habermas, argumentos que sustentem, na própria indisponibilidade da natureza, qualquer consideração ética que venha proibir ou autorizar a utilização de técnicas genéticas. Em outros termos, significa dizer que a dimensão normativa (ética) não decorre de autorizações ou proibições provenientes da natureza (biologia). Os planos da razão prática e razão teórica são distintos, cabendo, nesse aspecto, manter cada campo de atuação da racionalidade em sua especificidade própria. Norma (ética) não se confunde com necessidade (determinismo natural).