(ENEM - 2023)
Mestre e companheiro, disse eu que nos íamos despedir. Mas disse mal. A morte não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima. Um dia supuseste “morta e separada” a consorte dos teus sonhos e das tuas agonias, que te soubera “pôr um mundo inteiro no recanto” do teu ninho; e, todavia, nunca ela te esteve mais presente, no íntimo de ti mesmo e na expressão do teu canto, no fundo do teu ser e na face de tuas ações. Esses catorze versos inimitáveis, em que o enlevo dos teus discípulos resume o valor de toda uma literatura, eram a aliança de ouro do teu segundo noivado, um anel de outras núpcias, para a vida nova do teu renascimento e da tua glorificação, com a sócia sem nódoa dos teus anos de mocidade e madureza, da florescência e frutificação de tua alma. Para os eleitos do mundo das ideias a miséria está na decadência, e não na morte. A nobreza de uma nos preserva das ruínas da outra. Quando eles atravessavam essa passagem do invisível, que os conduz à região da verdade sem mescla, então é que entramos a sentir o começo do seu reino, o reino dos mortos sobre os vivos.
BARBOSA, R. O adeus da Academia a Machado de Assis. Rio de Janeiro: Agir, 1962.
Esse é um trecho do discurso de Rui Barbosa na Academia Brasileira de Letras em homenagem a Machado de Assis por ocasião de sua morte. Uma das características desse discurso de homenagem é a presença de
metáforas relacionadas à trajetória pessoal e criadora do homenageado.
recursos fonológicos empregados para a valorização do ritmo do texto.
frases curtas e diretas no relato da vida e da morte do homenageado.
contraposição de ideias presentes na obra do homenageado.
seleção vocabular representativa do sentimento de nostalgia.
Gabarito:
metáforas relacionadas à trajetória pessoal e criadora do homenageado.
a) CORRETA, uma vez que há diversas metáforas no texto que remetem ao casamento de Machado de Assis e Carolina, algo que foi, de certa forma, crucial para que a escrita machadiana se aflorasse mais e mais. Vemos isso claramente na menção aos catorze versos, além da questão dos discípulos e a menção ao segundo noivado.
b) INCORRETA, pois não é possível perceber a utilização de recursos estilísticos fonológicos no texto.
c) INCORRETA, já que há frases longas e curtas.
d) INCORRETA, dado que não há uma contraposição de ideias, o que vemos é uma exaltação da obra machadiana.
e) INCORRETA, visto que o sentimento aqui não é de nostalgia, mas é uma homenagem e uma exaltação da obra e do legado de Machado, além de um toque de otimismo diante da morte, encarada como uma passagem.