(ENEM - 2023)
Mais iluminada que outras
Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos. Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem — dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados.
ARRAES, J. Redemoinho em dia quente. São Paulo: Alfaguara, 2019.
Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora
revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.
questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.
reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.
sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.
mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.
Gabarito:
revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.
a) CORRETA, já que logo no começo do texto ela lista as características de seu corpo (faminto, dentado, cruel, capaz e violento), além disso, fala que multidões correm quando ela move seus braços. Outros aspectos mencionados por ela são a questão de andar com o rosto para baixo e dizer que possui partes isoladas indomáveis. Ao final do texto ela amarra tudo isso dando a entender que se trata de um corpo negro e o feminino já fica claro desde o começo. Portanto, essa alternativa já se firma como correta.
b) INCORRETA, pois o pioneirismo do Ceará é apenas mencionado, não há um questionamento dele, é um fato dado.
c) INCORRETA, visto que é incorreto afirmar que há uma reprodução de padrões estéticos, na maior parte do texto ela lista suas características enquanto as associa com algo animalesco e forte. A questão do preenchimento de sobrancelhas é um detalhe muito pequeno diante do restante do texto, então não há motivo para considerar essa afirmativa correta.
d) INCORRETA, dado que não é claramente onírica a ideia que ela quer passar, o que a narradora faz é indicar traços seus da forma que ela os percebe. Além disso, não fica claro o desejo de resgate da espiritualidade.
e) INCORRETA, uma vez que os corpos não são incorporados à paisagem, pela narradora. A menção à caatinga figura como um caracterizador de qual tipo de animal ela seria.