(ENEM - 2023)
Enquanto estivemos entretidos com os urubus outras coisas andaram acontecendo na cidade. A Companhia baixou novas proibições, umas inteiramente bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia cuspir pra cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro pra cortar caminho, tática que quase todo mundo que não sofria de reumatismo vinha adotando ultimamente, principalmente os meninos. E não confiando na proibição só, nem na força dos castigos, que eram rigorosos, a Companhia ainda mandou fincar cacos de garrafa nos muros. Achei isso um exagero, e comentei o assunto com mamãe. Meu pai ouviu lá do quarto e veio explicar. Disse que em épocas normais bastava uma coisa ou outra; mas agora a Companhia não podia admitir nenhuma brecha em suas ordens; se alguém desobedecesse à proibição podia se cortar nos cacos; se alguém conseguisse pular um muro quebrando o corte de alguns cacos, ou jogando um couro por cima, era apanhado pela proibição, nhoc — e fez o gesto de quem torce o pescoço de um frango.
VEIGA, J. J. Sombras de reis barbudos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
Sob a perspectiva do menino que narra, os fatos ficcionais oferecem um esboço do momento político vigente na década de 1970, aqui representado pelo
culto ao medo, infiltrado em situações do cotidiano.
sentimento de dúvida quanto à veracidade das informações.
ambiente de sonho, delineado por imagens perturbadoras.
incentivo ao desenvolvimento econômico com a iniciativa privada.
espaço urbano marcado por uma política de isolamento das crianças.
Gabarito:
culto ao medo, infiltrado em situações do cotidiano.
a) CORRETA, considerando que as proibições e o consequente castigo são formas de amedrontar a população, altamente vigiada no momento da Ditadura Militar na década de 70. Situações cotidianas são metaforizadas no trecho em que ele fala sobre cuspir para cima, tapar o sol com a peneira e carregar água em jaca.
b) INCORRETA, posto que o narrador não assume um tom de dúvida com relação à veracidade das informações, já que ele dá muitos detalhes sobre o sentido das proibições mencionadas.
c) INCORRETA, uma vez que não é possível entender o trecho como ambientado em um sonho, são imagens reais e verissímeis, vivenciadas no cotidiano do garoto.
d) INCORRETA, visto que essa política não é mencionada no texto.
e) INCORRETA, dado que não há um isolamento exclusivo das crianças no texto, as ordens da Companhia visam controlar a todas as pessoas.