(UNICAMP - 2022 - 2ª fase)
O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza,
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora.
O tempo busca, e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza,
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, senhora
O tempo o claro dia torna escuro,
E o mais ledo prazer em choro triste,
O tempo a tempestade em grã bonança
Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
(Luís de Camões, 20 sonetos. Campinas: Editora da Unicamp, 2018, p. 121.)
a) Identifique quatro antíteses poéticas constitutivas do núcleo temático desse soneto.
b) Esse soneto de Camões defende uma tese em seu percurso argumentativo. Apresente essa tese e explique as partes que constituem o percurso argumentativo do poema.
Gabarito:
Resolução:
A) A antítese é uma figura de linguagem que serve para potencializar a expressão por meio da relação entre sentidos opostos. Nesse soneto, podemos ver na terceira estrofe a presença de três antíteses: a oposição entre claro versus escuro em “O tempo o claro dia torna escuro”, a oposição entre prazer versus tristeza em “E o mais ledo prazer em choro triste” e a oposição entre tempestade versus bonança em “O tempo a tempestade em grã bonança”. A quarta antítese, porém, se constitui na ideia geral do soneto: o tempo como destruidor da “dureza”, mas que no 13º verso nos indica que ele mesmo possui um “peito de diamante” (o material mais duro do mundo). Ou seja, ele destrói a dureza, sendo que ele mesmo tem um coração/peito duro.
B) A tese defendida por Camões em seu poema é a de que o tempo é capaz de acabar com tudo, exceto com os sentimentos do eu lírico. Em todos os versos que é utilizado o verbo “acabar”, com o tempo sendo o sujeito, os objetos desse verbo são situações diversas, que vão desde coisas concretas e mensuráveis (como o ano, o mês, a hora, a riqueza) até coisas abstratas e não mensuráveis (como a força, a arte, a manha, a fortaleza, a fama, a ingratidão, etc.). No entanto, o único lugar que o tempo não tem efeito é nos sentimentos do eu lírico, já que é dito na segunda estrofe “Mas não pode acabar minha tristeza”. Por fim, Camões constrói a ideia de que o tempo, mesmo sendo destruidor de tudo, também possui sentimentos, por mais duro como seu coração pareça ser e esses sentimentos são para que aquilo que ele destruiu se renove em algo novo.