(UNICAMP - 2022 - 1ª fase - Caderno R)
Na ribeira do Eufrates assentado,
Discorrendo me achei pela memória
Aquele breve bem, aquela glória,
Que em ti, doce Sião, tinha passado.
Da causa de meus males perguntado
Me foi: Como não cantas a história
De teu passado bem e da vitória
Que sempre de teu mal hás alcançado?
Não sabes, que a quem canta se lhe esquece
O mal, inda que grave e rigoroso?
Canta, pois, e não chores dessa sorte.
Respondi com suspiros: Quando cresce
A muita saudade, o piedoso
Remédio é não cantar senão a morte.
(Luís de Camões, 20 sonetos. Org. Sheila Hue. Campinas: Editora da Unicamp, 2018, p.113)
Considerando as características formais e o núcleo temático, é correto afirmar que o poema retoma o dito popular
“longe dos olhos, perto do coração”.
“mais vale cantar mal que chorar bem”.
“a cada canto seu Espírito Santo”.
“quem canta seus males espanta”.
Gabarito:
“quem canta seus males espanta”.
a) Alternativa incorreta. O texto não fala sobre essa alienação que o dito popular retoma. A obra trata, exclusivamente, da forma de lidar com sentimentos, como saudade (não pessoal, mas de algum tempo remoto passado em algum lugar, como nos versos 3 e 4, 6 e 7), através da canção (versos 9, 10 e 11) - uma vez que essa manifestação cultural é permeada por memórias. Assim, não é possível pensar no tipo de saudade pessoal como a alternativa sugere.
b) Alternativa incorreta. O texto não fala sobre uma dicotomia entre ser feliz ou triste, como esse dito popular pode nos remeter. O poema trata, assim, da ressignificação da memória por meio da música, o que remete à saudade, e não da dicotomia de sentimentos e emoções.
c) Alternativa incorreta. O texto não traz um sentido relacionado ao contido nesse dito popular. O dito "a cada canto seu Espírito Santo" faz referência às disparidades das celebrações religiosas em diversos "cantos" do mundo, isto é, cada canto possui um Espírito Santo próprio, suas crenças, suas maneiras de celebrá-lo. O poema não traz esse aspecto em momento algum.
d) Alternativa correta. Especialmente nas últimas duas estrofes do soneto, fica claro que o autor está incentivando as pessoas a cantarem sobre as coisas que lhes aconteceram, e, considerando especialmente “Não sabes, que a quem canta se lhe esquece / O mal, inda que grave e rigoroso? / Canta, pois, e não chores dessa sorte.” fica claro o sentido semelhante ao contido no dito popular.