(UNICAMP - 2021 - 2ª FASE)
Texto 1
O dilema das redes (2020) aborda um dilema comum em documentários desse tipo. É, sem dúvida, importante a denúncia vinda dos empresários desse setor que lucraram muito com a criação de empresas digitais que monopolizam as redes: a revelação de seu funcionamento, de seus preocupantes efeitos sobre as pessoas e de sua perniciosa influência em processos políticos – uma espécie de crise de consciência. Contudo, eles parecem não entender exatamente que são eles os protagonistas. Empenhados em desenvolver uma “ferramenta” capaz de integrar as pessoas, viram-se enredados nessa rede cuja finalidade era prender a atenção e servir de plataforma de marketing.
Ora, é evidente que são empresas que querem lucros, portanto, não são exatamente “ferramentas”. O documentário afasta a resposta simples de que o produto que vendem são os dados capturados por essas plataformas. Elas funcionam mapeando comportamentos e padrões de modo a dirigir a oferta do produto com um alto grau de certeza de consumo. E é aqui que a discussão fica interessante: qual é, afinal, o produto? A resposta do documentário é simples: nós.
Texto 2
[Sabe...Eu acho que o dilema não é a rede... mas o pescador!!!]
(Adaptado de Mauro Iasi, O dilema do dilema das redes: a internet é o ópio do povo. Blog da Boitempo. Disponível em https://blogdaboitempo. com.br/o-dilema-do-dilema-das-redes-a-internet-e-o-opio-do-povo/. Acessado em 10/10/2020.)
a) Considerando o primeiro parágrafo do texto 1, indique dois substantivos a que a expressão “viram-se enredados” se refere.
b) Considere a charge (Texto 2) e, com base na finalidade das “ferramentas” (discutidas no primeiro e no segundo parágrafos do Texto 1), explique por que o dilema não é da rede.
Gabarito:
Resolução:
a) A locução “viram-se enredados” remete aos substantivos “empresários” e “protagonistas”.
b) Como apresenta o teto de Mauro Iasi, o grande dilema da consciência e dos dados no mundo virtual não é atributo exclusivo das “redes”, como a suposta “ferramenta” que são. O problema está centrado, na verdade, nos “pescadores” - grandes empresários e monopolistas dessas redes que as inserem numa lógica de marketing e consumo próprias do capitalismo tecnológico. Nesse panorama, o ponto sensível não é, portanto, o funcionamento das “ferramentas”, mas sim a dinâmica implícita de usos que coloca, no limite, o usuário como produto. A internet e suas redes surgem, portanto, como meios de reificação e alienação do indivíduo, que assume, com seus dados, valor qualitativo para os protagonistas do espetáculo de lucros e trocas no mundo digital.