(UNICAMP - 2021 - 1ª fase)
Certas imagens literárias podem tornar-se nucleares para uma cultura. Assim, por exemplo, a figura do marinheiro em Portugal. Ela adquire significados diferentes em períodos históricos distintos, mas conserva um elemento permanente. A semelhança entre a imagem do marinheiro em Camões e em Fernando Pessoa reside
no realismo moral do povo português, resultado da era das grandes navegações e da expansão do catolicismo.
na representação de uma identidade coletiva e individual sob o signo da mudança, do risco e da travessia.
na alegoria da degradação moral dos amantes e dos aventureiros, movidos pelo desejo sexual e pela cobiça material.
na simbolização dos ideais econômicos de Portugal, com reflexos na vida espiritual.
Gabarito:
na representação de uma identidade coletiva e individual sob o signo da mudança, do risco e da travessia.
[B]
A figuração do marinheiro, ou navegante, em Camões e Pessoa reflete o peso dessa figura para a cultura e a identidade portuguesas. Tanto na épica camoniana como na poesia pessoana, o marinheiro emerge como um signo que reflete uma identidade com a qual o povo português pode se identificar: metonímia para o movimento diante do desconhecido, a coragem, a travessia. Tanto a figura de Vasco da Gama n’Os Lusíadas, bem como o marinheiro revelado na peça homônima de Pessoa são símbolos do gesto lusitano fundamental, o da descoberta - que funda mitos, sonhos, dores e contradições.
Sobre as demais afirmativas - Justificativas oficiais da banca (COMVEST)
A alternativa a é incorreta porque explica a semelhança da imagem do marinheiro nos dois poetas a partir da ideia de realismo moral como consequência de dois eventos relacionados: as grandes navegações e a expansão do catolicismo. Ora, se há algo que a peça O marinheiro, por exemplo, coloca em dúvida são as noções de realidade e, no limite, o que entendemos por valores morais ou fatos morais objetivos. As alternativas c e d são incorretas porque ambas interpretam a imagem do marinheiro de uma maneira categórica com base nos conceitos de alegoria e símbolo, afirmando que a imagem é alegórica (alternativa c), ao por a degradação moral dos amantes, juízo que não encontra respaldo nos dois autores; ou que a imagem é simbólica (alternativa d), e significa os ideais econômicos de Portugal, afirmação que está incorreta porque restringe o próprio campo semântico da imagem, contrariando o aspecto polissêmico do símbolo, e, sobretudo, porque estabelece um vínculo lógico entre a vida econômica e a espiritual que inexiste na obra desses poetas