(UNICAMP - 2021 - 2ª Fase)
Leia a definição abaixo e a transcrição de parte do vídeo feito por Regina Casé e a filha Benedita no dia do surdo.

Essa aqui é a Benedita, minha filha. Ela tem uma perda auditiva severa. Ela teve essa perda quando era muito bebezinha. Desde então, eu vi que as pessoas têm muita dificuldade de se comunicar com ela. Ficam agoniadas quando percebem que ela não escuta ou que ela usa aparelho. Então, nós duas resolvemos ajudar um pouquinho, com nossa experiência, nessa comunicação com situações do dia a dia. Por exemplo: não dá para falar de costas para a pessoa, porque muitas vezes ela depende da leitura labial para entender. Outro exemplo: não precisa gritar porque volume (alto-baixo) é uma coisa completamente diferente de frequência (agudograve). Outra coisa que acontece direto: em vez de falarem com a pessoa surda, perguntam para a pessoa que está do lado. E para terminar, é uma loucura quando alguém fala: `Nossa, mas ela é tão linda! Ninguém diz que ela é surda´. Procure saber o que é capacitismo e daqui para frente seja anticapacitista! Ela é linda. E é surda!
(Adaptado de Regina Casé. Disponível em https://www.instagram.com/ tv/CFmrEqylXpI/?utm_source=ig_embed.)
a) Considerando as noções de capacitismo e anticapacitismo, explique o uso de “mas” e de “e” nas frases “Nossa, mas ela é tão linda!” “Ela é linda. E é surda!”.
b) Apontando as dificuldades de comunicação com uma pessoa surda, Regina Casé observa que uma situação frequente é o interlocutor dirigir-se a quem está ao lado da pessoa. Nesse caso, trata-se de uma atitude capacitista ou anticapacitista? Explique.
Gabarito:
Resolução:
A) As duas conjunções, nesse contexto, marcam relações divergentes.
No primeiro caso, o “mas” é um articulador adversativo, que marca a oposição entre as ideias de “surda”, suposta no “ela”, e “linda”. Esse argumento, de base capacitista e preconceituosa, considera a beleza, julgamento positivo, e a surdez, julgamento negativo, como polos mutuamente excludentes.
Ao reestruturar a frase pela troca da conjunção, Regina Casé substitui a articulação adversativa e excludente, pela conjunção aditiva, capaz de agregar as duas características. Nessa fala, anticapacitista, o atributo de beleza pode, sim, estar associado à surdez - uma vez que a deficiência não diminiu em nada as atribuições positivas e a potência da pessoa que a possui.
B) A atitude de ignorar a pessoa com deficiência e remeter diretamente a quem está ao lado configura um gesto capacitista. Ele parte do preconceito fundamental de que a pessoa com deficiência, surda, será incapaz de compreender e se comunicar com uma pessoa ouvinte, o que é um mito comum para a população sem deficiência. O desdobramento direto dessa atitude é a exclusão física da PCD, impedida de interagir, algo que, em sentido mais amplo, reflete a exclusão social estrutural à qual ela está submetida.