(UNICAMP - 2021 - 2ª Fase)
Peroração, do latim perorātio, peroratiōnis, de perorāre, significa concluir, arrematar, acabar. Corresponde à parte final do sermão, caracterizada geralmente pela recapitulação, pela amplificação de uma ideia e pela comoção do auditório. Sua finalidade última é comover e mover os ouvintes, isto é, emocionar e mover o ânimo do público para a ação.
(Adaptado de Flávio Antônio Fernandes Reis, “Peroração”. Disponível em www.edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/peroracao. Acessado em 06/10/2020.)
“Mortos, mortos, desenganai estes vivos! Dizei-nos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos, quando entrastes e saístes pelas portas da morte. (...) Entre essas duas portas se acha subitamente o homem no momento da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre. Oh que transe tão apertado! Oh que passo tão estreito! Oh que momento tão terrível!”
(Antonio Vieira, “Sermão de 1672”. Sermões de Quarta-feira de Cinza. A arte de morrer: São Paulo: Nova Alexandria,1994, p. 65.)
a) Identifique e explique as duas estratégias retóricas utilizadas por Vieira ao encaminhar-se para a conclusão do Sermão de 1672.
b) Com que sentimentos o pregador busca sensibilizar os ouvintes? Que ação procura estimular nos cristãos?
Gabarito:
Resolução:
a) Padre Antônio Vieira utiliza como princípios retóricos, o processo metonímico com o uso do vocativo “mortos”, bem como a metáfora espacial, com o cenário das portas abertas para o céu ou o inferno. Na primeira estratégia, o sermonista faz uso da metonímia - a parte pelo todo - na expressão “Mortos, mortos, desenganai estes vivos”, na qual os “mortos” são tidos como interlocutores alegóricos para se direcionar ao todo (a assembleia em si) tomando a imagem e a ideia dos “mortos” como vocativos daqueles que já sabem o que acontece após a vida. Esse primeiro recurso sustenta a concepção de prever o sofrimento após a morte e é capaz de promover a reflexão do fiel acerca daquilo que poderá lhe acontecer, uma espécie de argumento de autoridade, por isso, pede-lhes que ‘desenganem os vivos'. Realçando a concepção de passagem de um “estágio” para “outro”, isto é, o de “vida” para “morte”, no trecho “entre essas duas portas se encontra o homem no momento da morte”, Vieira recupera a imagem dos portões do inferno, ou os celestiais, como entrada que escolhe, seleciona, define os fiéis que entrariam ou não para o reino dos céus. Enquanto princípio metafórico são as características seguintes “transe apertado”, “passo estreito”, “momento terrível” que adjetivam essa passagem de cenário de maneira aterrorizante, o que sustenta certo constrangimento, pavor e temor ao fiel.
b) A partir de uma espécie de aterrorização dos fiéis e da personificação dos mortos como figuras que podem dizer de suas experiências após a vida, Vieira constrói um sentimento de temor em sua pregação. A peroração é marcada não somente pela virtuosa capacidade de comover os fiéis em relação ao que lhes pode acontecer a partir de seus pecados, mas sobretudo, realçando que já existem imagens, relatos, testemunhos dos que lá (no inferno) estiveram, e do quão pavorosa foi tal experiência. O autor exorta, portanto, um caminho difícil para se alcançar os céus, que requer clareza dos próprios atos do fiel, evitando a traumática e terrível passagem pela metáfora das “portas estreitas”.