(UNICAMP - 2018 - 1ª fase)
A fim de dar exemplos de sua teoria da “alma exterior”, o narrador-personagem do conto “O espelho”, de Machado de Assis, refere-se a uma senhora conhecida sua “que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano”.
E, questionado sobre a identidade dessa mulher, afirma: “Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião...”
Considerando o contexto dessa frase no conto, pode-se dizer que ela constitui
uma crítica à noção de alma exterior como resultante da influência do mal.
uma consideração cômica que ressalta o nome inusitado da senhora.
uma condenação do comportamento moral da senhora em questão.
uma ironia com a inconstância dos valores sociais associados à alma exterior.
Gabarito:
uma ironia com a inconstância dos valores sociais associados à alma exterior.
[D]
No conto “O espelho”, de Machado de Assis, cinco personagens conversam sobre mistérios do universo. Um deles (Jacobina) então apresenta uma teoria: de que cada ser humano possui, não uma, mas duas almas, a “alma exterior” e a “alma interior”. A alma interior seria a representação do ser em sua essência; a exterior, a representação social do ser, aquilo com o qual se identifica e por meio de que se atribui valor: papéis sociais, posses, objetos... De acordo com essa teoria, a alma exterior seria superficial e relacionada aos valores sociais.
A “senhora” a que Jacobina se refere poderia ser caracterizada como pessoa apegada às aparências, cuja personalidade se definiria pelo consumo de bens materiais ou culturais, que mudam ao sabor da moda: “Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...”.
COMENTÁRIO UNICAMP
A alternativa correta é a d. No contexto da problematização que o conto empreende a respeito da identidade pública dos indivíduos, a referência à multiplicidade e à troca de “alma exterior” remete ironicamente à oscilação e à alternância dos valores sociais. A alternativa a é incorreta, pois a teoria em questão não estabelece uma relação entre a “alma exterior” e o problema filosófico e religioso do mal, e tampouco resulta dele. A alternativa b também deve ser considerada incorreta, uma vez que “Legião” faz alusão ao comportamento da mulher mencionada e não a seu nome real. Finalmente, a alternativa c é incorreta, porque se trata de caracterizar o sentido social do comportamento em questão: não há referência ao conteúdo específico desse comportamento e nem a seu aspecto moral, apenas à sua oscilação.