(UNESP - 2019 - 2 fase)
Texto 1
Para René Descartes, o que fundamenta o método universal para conhecer o mundo é a reta razão, que pertence a todos os homens, sendo “a coisa mais bem distribuída do mundo”. Mas o que é essa reta razão? “A faculdade de julgar bem e distinguir o verdadeiro do falso é propriamente aquilo que se chama bom senso ou razão, que é naturalmente igual em todos os homens”. A unidade das ciências remete à unidade da razão. E a unidade da razão remete à unidade do método. O saber deve basear-se na razão e repetir sua clareza e distinção, que são os únicos pressupostos irrenunciáveis do novo saber.
(Giovanni Reale e Dario Antiseri. História da filosofia, 1990. Adaptado.)
Texto 2
Quase sem exceção, os filósofos colocaram a essência da mente no pensamento e na consciência. O homem era o animal consciente, o animal racional. Mas, para Schopenhauer, a consciência é a simples superfície da nossa mente. Sob o intelecto consciente está a vontade inconsciente, uma força vital, persistente, uma vontade de desejo imperioso. Às vezes, pode parecer que o intelecto dirija a vontade, mas só como um guia conduz o seu mestre. Nós não queremos uma coisa porque encontramos motivos para ela, encontramos motivos para ela porque a queremos; chegamos até a elaborar filosofias e teologias para disfarçar os nossos desejos. Daí a inutilidade da lógica: ninguém jamais convenceu alguém usando a lógica. Para convencer um homem, é preciso apelar para o seu interesse pessoal, seus desejos, sua vontade.
(Will Durant. A história da filosofia, 1996. Adaptado.)
a) Com base no texto 1, justifique por que o método de Descartes aspira à universalidade. Explique a importância da matemática para a produção de conhecimentos dotados de clareza e distinção.
b) Em que consiste a ruptura filosófica estabelecida por Schopenhauer na relação entre razão e emoção? Explique a diferença entre Descartes e Schopenhauer quanto ao papel da consciência na relação com a realidade.
Gabarito:
Resolução:
a) Para Descartes, o método cartesiano aspira à universalidade a partir do momento que o seu objetivo é buscar justamente uma ciência que seja universal e necessária. Sendo assim, funda a perspectiva racionalista baseando-se naquilo que os seres humanos tem como um adjetivo universal: o de serem animais racionais. O método cartesiano, orientação para a racionalidade, gozaria de um estatuto universal por esse pressuposto: o de estar guiando uma capacidade de todos os seres humanos. É nesse sentido que a matemática deveria ser o modelo para o conhecimento filosófico a partir do momento que tal saber trabalha sempre com resultados e conclusões universais e necessários, sem espaço para dúvidas ou averiguações subjetivas.
b) Schopenhauer empreendeu um esforço teórico para revelar a realidade de que o guia as ações do ser humano não é a sua instância racional, como se acreditava até então. Pelo contrário, o que impele o agir humano é a sua face mais irracional, cega, instintual e inconsciente, ou seja, a sua vontade ou os seus desejos mais abissais. A orientação iluminista do ser humano empreender um esforço para guiar a busca pelos seus objetivos acaba sendo improcedente com a tese de Schopenhauer. Sendo assim, para Descartes, o link entre o ser humano e a realidade se dá pela sua consciência racional; enquanto que, para Schopenhauer, o que impera na relação do ser humano com as suas circunstância é justamente aquilo que ele tem de irracional ou inconsciente, sem controle e sem conhecimento de si próprio.