(UNESP 2015/2 - 2 fase - Questão 10)
A ciência é uma atividade na sua essência antidogmática. Pelo menos deveria sê-lo. A ciência, em particular a física, parte de uma visão do mundo que é, de acordo com a terminologia utilizada por Arquimedes, um pedido que se faz. É assim porque pedimos para que se admita, à escala a que pretendemos descrever os fenômenos, que o mundo assuma uma determinada forma. Os outros pedidos e postulados têm de se inserir, tão pacificamente quanto possível, nesse pedido fundacional. Mas nunca perderão o estatuto de pedidos. Transformá-los em dogmas é perturbar a ciência com atitudes que lhe deveriam ser totalmente estranhas.
(Rui Moreira. “Uma nova visão da natureza”. Le Monde Diplomatique, março de 2015. Adaptado.)
Baseando-se no texto, explique qual deve ser a relação entre ciência e verdades absolutas. Explique também a diferença entre uma visão de mundo baseada em “pedidos” e uma visão de mundo dogmática.
Gabarito:
Resolução:
Como postula Karl Popper, toda teoria científica é passível de falibilidade, de ser substituída por uma posterior e superior a ela, de modo que o conhecimento científico não postula-se como uma verdade absoluta de algo e sempre está em constante evolução. Ademais, o conhecimento científico opera-se a partir de determinados pontos de partida, na investigação de aspectos e objetos definidos; propõe teorias e hipóteses, a partir da análise da realidade empírica e de experimentação, o que não se traduz em fórmulas prontas de conhecimento. Arquimedes era um físico e matemático que não confiava em verdades dogmáticas e absolutas. Por isso, ao recusar as verdades absolutas, a ciência não tem uma postura dogmática e conclusiva, não espera que o mundo, objeto de sua investigação, se dobre aos seus objetivos analíticos; aguarda-o em uma postura de que este assuma, diante de seu pedido, a forma investigada, porém não se pode entender que o pedido torna-se em uma ordem, de que o mundo seja, em essência, a forma de sua investigação, e, assim, que a verdade absoluta tenha sido alcançada e que o conhecimento seja inflexível, sem a experimentação de tal teoria. A ciência opera com hipóteses em relação de aproximição com a realidade.