(UNESP 2015/2 - 2 fase - Questão 9)
Do ponto de vista do Iluminismo, a ilusão deixa de ser uma simples deficiência subjetiva, e passa a enraizar-se em contextos de dominação, de onde a ilusão deriva e se incumbe de estabilizar. O preconceito – a opinião falsa, não controlável pela razão e pela experiência – revela seu substrato político. É no interesse do poder que a razão é capturada pelas perturbações emocionais, abstendo-se do esforço necessário para libertar-se das paixões perversas, e para romper o véu das aparências, que impedem uma reflexão emancipatória. Deixando-se arrastar pelas interferências, a razão não pode pensar o sistema social em sua realidade. Prisioneira do dogmatismo, que nem pode ser submetido ao tribunal da experiência nem permite a instauração desse tribunal, a razão está entregue, sem defesa, às imposturas da religião e de todos os outros dogmas legitimadores.
(Sérgio Paulo Rouanet. A razão cativa, 1990. Adaptado.)
Considerando o texto e o título sugestivo do livro de Rouanet, explique as implicações políticas do cativeiro da razão e defina o que significa a reflexão emancipatória referida pelo autor.
Gabarito:
Resolução:
Rouanet parte do princípio iluminista na busca por uma razão autônoma, como uma faculdade de juízo sobre a realidade, que, se condicionada ao dogmatismo de caráter religioso ou ideológico, presa às paixões e interferências dominadoras, perde a sua capacidade emancipatória. As implicações políticas desse cativeira da razão, a partir do viés abordado, é o domínio do ser humano por ideologias políticas que, na esfera pública, servem a interesses escusos e particulares, a dogmas sem o juízo da razão e da experiência, impossibilitando a liberdade da consciência frente a essas dominações políticas e ilegítimas. Essas formas de dominação política consiste, assim, em concepções que se distanciam da realidade, em ideologias que suprimem-na em virtude de ideias políticas sem o crivo da razão. A emancipação da reflexão indica a percepção de que essas noções não condizem com o real, por meio do abandono ao dogmatismo e a preconceitos, condição única para estabelecimento de projetos políticos coerentes e democráticos.