(UFU - 2004)
Leia o trecho que se segue:
Do arco o nome é vida e a obra é morte..
(HERÁCLITO. Sobre a natureza. Trad. de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. 56. Coleção .Os Pensadores..)
Este fragmento ilustra bem o pensamento de Heráclito, que acreditou ser o mundo o eterno fluir, comparado a um rio no qual entramos e não entramos. Assinale a alternativa que explica o fragmento mencionado acima.
Todas as coisas estão em oposição umas com as outras, o que explica o caráter mutável da realidade. A unidade do mundo, sua razão universal resulta da tensão entre as coisas, daí o emprego freqüente, por parte de Heráclito, da palavra guerra para indicar o conflito como fundamento do eterno fluxo.
A harmonia que anima o mundo é aberta aos sentidos, sendo possível ser conhecida na multiplicidade daquilo que é manifesto, uma vez que a realidade nada mais é que o eterno fluxo da multiplicidade do Logos heraclitídeo.
A unidade dos contrários, a vida e a morte, é imóvel, podendo ser melhor representada para o entendimento humano por intermédio da imagem do fogo, que permanece sempre o mesmo, imutável e continuamente inerte, e não se oculta aos olhos humanos.
O arco, instrumento de guerra, indica que a idéia de eterno fluxo, das transformações que compõem o fluxo universal, é o fundamento da teoria do caos, pois o fogo se expande sem medida, tornado a realidade sem nenhuma harmonia ou ordem.
Gabarito:
Todas as coisas estão em oposição umas com as outras, o que explica o caráter mutável da realidade. A unidade do mundo, sua razão universal resulta da tensão entre as coisas, daí o emprego freqüente, por parte de Heráclito, da palavra guerra para indicar o conflito como fundamento do eterno fluxo.
"Do arco o nome é vida e a obra é morte." As palavras arco e vida, em grego, são escritas da mesma forma, diferenciadas apenas por um acento. O fragmento ilustra que a physis é constituída por uma infinidade de elementos assimétricos, em movimento constante de união e separação, que nascem, florescem e perecem. Segundo Heráclito, o Logos define a ordem dessa composição de fenômenos, inspirado na harmonia da lira de Apolo: a vida se resume ao permanente combate entre forças opostas. A obra da vida é a morte (parece irônico, mas está de acordo com a teoria heraclitiana): entre esses contrários persiste o inevitável o movimento de ida e volta, estabelecido pela harmonia que é própria da essência do arco.
a) Correta. Todas as coisas estão em oposição umas com as outras, o que explica o caráter mutável da realidade. A unidade do mundo, sua razão universal resulta da tensão entre as coisas, daí o emprego freqüente, por parte de Heráclito, da palavra guerra para indicar o conflito como fundamento do eterno fluxo.
A realidade é uma constante luta de contrários, existindo um eterno movimento que caracteriza a mutabilidade do mundo e das coisas. A unidade do mundo provém dessa guerra, pois, como tudo tem seu oposto, surge um equilíbrio nas coisas. A guerra dos contrários é o fundamento do movimento constante, o "eterno fluxo", que origina a harmonia da realidade. Nada é imóvel e imutável: o fogo, ou seja, a mobilidade e o devir com sua harmonia caracterizam a realidade.
b) Incorreta. A harmonia que anima o mundo é aberta aos sentidos, sendo possível ser conhecida na multiplicidade daquilo que é manifesto, uma vez que a realidade nada mais é que o eterno fluxo da multiplicidade do Logos heraclitídeo.
O erro da alternativa B é afirmar que a harmonia do mundo pode ser conhecida na multiplicidade daquilo que é manifesto. A harmonia produzida pela luta dos contrários é percebida a partir da união entre o que captam os sentidos (a mutabilidade) e o pensamento. Ou seja, não basta perceber as mudanças e a impermanência das coisas (aquilo que é manifesto) pelos sentidos, é preciso fazer uso da razão para compreendê-las e conceber a harmonia que anima o mundo.
c) Incorreta. A unidade dos contrários, a vida e a morte, é imóvel, podendo ser melhor representada para o entendimento humano por intermédio da imagem do fogo, que permanece sempre o mesmo, imutável e continuamente inerte, e não se oculta aos olhos humanos.
O conflito entre os opostos não é imóvel: representa o devir e o eterno movimento. O fogo representa justamente a imagem contrária da imobilidade e imutabilidade: o movimento constante, eternamente vivo, que ordenadamente se acende e regularmente se extingue.
d) Incorreta. O arco, instrumento de guerra, indica que a idéia de eterno fluxo, das transformações que compõem o fluxo universal, é o fundamento da teoria do caos, pois o fogo se expande sem medida, tornado a realidade sem nenhuma harmonia ou ordem.
O fogo não se expande imensuravelmente e tampouco torna a realidade desordenada ou desarmônica: a luta dos contrários, o devir e o movimento constante que o fogo representa são o que origina a harmonia na realidade; tudo tem seu oposto, e com isso vem o equilíbrio.