(UFU - 2004)
Leia o texto abaixo.
“Não me é desconhecido que muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de sorte que a prudência dos homens não pode corrigi-las, e mesmo não lhes traz remédio algum. [...] Às vezes, pensando nisso, me tenho inclinado a aceitá-la. Não obstante, e porque o nosso livre arbítrio não desapareça. penso poder ser verdade que a fortuna seja árbitra de metade de nossas ações. mas que. ainda assim, ela nos deixa governar quase outra metade.”
MAQUIAVEL. O príncipe. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 109.
O pensamento apresentado acima abre caminho para o conceito de virtú, qualidade indispensável para o êxito do príncipe, pois a fortuna oferece as ocasiões para as ações do governante, que terá de agir com virtú. Assinale a alternativa que oferece a definição de virtú tal como Maquiavel a concebeu.
É a violência indiscriminada e dirigida ao corpo dos cidadãos, somente o emprego da força das armas é capaz de submeter as vontades humanas sob a autoridade impiedosa e avara do príncipe moderno.
São os valores espirituais que se sobrepõem aos interesses meramente materiais, somente a virtude da humildade permite a realização do bem comum, que é a fonte inesgotável da paz e harmonia entre súditos e governante.
É a prática da bondade, qualidade indispensável que permite o discernimento da ideia de bem como norteadora das ações políticas, de maneira desinteressada e sempre voltada para a realização dos princípios supremos da religião.
E o poder, a virilidade humana, capaz de agir e dominar o curso das coisas humanas, imprimindo nos acontecimentos as mudanças necessárias à realização de grandes obras para a conquista e conservação do poder.
Gabarito:
E o poder, a virilidade humana, capaz de agir e dominar o curso das coisas humanas, imprimindo nos acontecimentos as mudanças necessárias à realização de grandes obras para a conquista e conservação do poder.
d) Correta. E o poder, a virilidade humana, capaz de agir e dominar o curso das coisas humanas, imprimindo nos acontecimentos as mudanças necessárias à realização de grandes obras para a conquista e conservação do poder.
O conceito de virtude — ou melhor, virtú — não está ligado ao seu conceito tradicional, ligado à moral, à ética e ao bem, mas ao conceito de técnica, habilidade; nesse sentido, virtú é melhor entendida como uma determinada capacidade, uma habilidade que o princípe deve ter. E esse capacidade é a de dominar a fortuna. Fortuna, aqui, pode ser entendida como o acaso, o que é meramente contingencial. Isto é, a virtude é a capacidade do princípe em controlar o acaso. Maquiavel, como um pensador pragmatista, adequa a sua filosofia à realidade como ela se apresenta, sem idealidades. Nesse sentido, a virtude é a habilidade do princípe em se adequar às circunstâncias como estas se apresentam, sem apresentar idealidades éticas, morais ou de poder, a fim de estabelecer o seu poder a partir das circunstâncias.
a) Incorreta. É a violência indiscriminada e dirigida ao corpo dos cidadãos, somente o emprego da força das armas é capaz de submeter as vontades humanas sob a autoridade impiedosa e avara do príncipe moderno.
A virtú não é a violência indiscriminada contra os cidadãos, pois não é somente o emprego da força das armas que submete-os à sua autoridade.Tanto que Maquiavel faz referências às leis como instrumento do exercício político. Além disso, a tirania pode favorecer a rebelião, o que pode ser um problema para a manuntenção do poder do príncipe.
b) Incorreta. São os valores espirituais que se sobrepõem aos interesses meramente materiais, somente a virtude da humildade permite a realização do bem comum, que é a fonte inesgotável da paz e harmonia entre súditos e governante.
O poder político não deve ser dependente de valores espirituais em detrimento dos materiais. A concepção moral pragmática de Maquiavel é oposta à concepção normativa de pensadores gregos. Maquiavel visa se opor às perspectivas políticas idealistas, que buscavam nortear a vida política e o governo do príncipe no que deve ser, numa metafísica e no ideal.
c) Incorreta. É a prática da bondade, qualidade indispensável que permite o discernimento da ideia de bem como norteadora das ações políticas, de maneira desinteressada e sempre voltada para a realização dos princípios supremos da religião.
O poder político não deve ser dependente da religião, pois Maquiavel seculariza-o. A concepção moral pragmática de Maquiavel é oposta à concepção transcendente e normativa da moralidade cristã. Maquiavel visa se opor às perspectivas políticas escolásticas e medievais, que buscavam nortear a vida política e o governo do príncipe no que deve ser, numa metafísica e no ideal.