(UEL - 2009)
Texto 1
Eis aqui, portanto, o princípio de quando se decidiu fazer o homem, e quando se buscou o que devia entrar na carne do homem.
Havia alimentos de todos os tipos. Os animais ensinaram o caminho. E moendo então as espigas amarelas e as espigas brancas, Ixmucaná fez nove bebidas, e destas provieram a força do homem. Isto fizeram os progenitores, Tepeu e Gucumatz, assim chamados.
A seguir decidiram sobre a criação e formação de nossa primeira mãe e pai. De milho amarelo e de milho branco foi feita sua carne; de massa de milho foram feitos seus braços e as pernas do homem. Unicamente massa de milho entrou na carne de nossos pais.
(Adaptado: SUESS, P. Popol Vuh: Mito dos Quiché da Guatemala sobre sua origem do milho e a criação do mundo. In: A conquista espiritual da América Espanhola: 200 documentos – Século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 32-33.)
Texto 2
“Se você é o que você come, e consome comida industrializada, você é milho”, escreveu Michael Pollan no livro O Dilema do Onívoro, lançado este ano no Brasil. Ele estima que 25% da comida industrializada nos EUA contenha milho de alguma forma: do refrigerante, passando pelo Ketchup, até as batatas fritas de uma importante cadeia de fast food – isso se não contarmos vacas e galinhas que são alimentadas quase exclusivamente com o grão.
O milho foi escolhido como bola da vez ao seu baixo preço no mercado e também porque os EUA produzem mais da metade do milho distribuído no mundo.
(Adaptado: BURGOS, P. Show do milhão: milho na comida agora vira combustível. Super Interessante. Edição 247, 15 dez. 2007, p.33.)
Com base nos textos 1 e 2 e nos conhecimentos sobre as relações entre organização social e mito, é correto afirmar.
Os deuses maias criaram os homens dotados de livre arbítrio para, a partir dos princípios da razão e da liberdade, ordenarem igualitariamente a sociedade.
A exemplo das narrativas que predominavam no período homérico da Grécia antiga, os mitos expressam uma forma de conhecimento científico da realidade.
Na busca de um princípio fundante e ordenador de todas as coisas, como ocorre na mitologia grega, a narrativa mítica justifica as bases da legitimação de organização política e de coesão social.
Assim como nos povos Quiché da Guatemala, também os mitos gregos procuram explicar a arché, a origem, a partir de um elemento originário onde está presente o milho.
Para certas tradições de pensamento, como a da escola de Frankfurt, o iluminismo representa a superação completa do mito.
Gabarito:
Na busca de um princípio fundante e ordenador de todas as coisas, como ocorre na mitologia grega, a narrativa mítica justifica as bases da legitimação de organização política e de coesão social.
c) Correta. Os mitos homéricos serviram de base para a educação, formação e visão de mundo que o homem grego arcaico possuía. Em seus cânticos, Homero justapõe conceitos importantes como harmonia, proporção e questionamentos a respeito dos princípios, das causas e do porquê das coisas. Embora todas essas instâncias apresentavam-se como tal, os mitos não deixaram de lado o caráter mágico, fictício e fabular em que eram narrados.
Da mesma forma que a mitologia grega, todas as narrativas míticas buscam explicar (e legitimar) as formas de organização social e política a partir de um princípio fundante e ordenador.
a) Incorreta. De acordo com os poemas homéricos, os deuses em nada poderiam interferir no destino dos humanos e, assim, a determinação divina (ananque) se colocava em segundo plano, uma vez que era o acaso (tykhe) quem governava, isto é, possuía a função de ensinar ao homem o que este deveria escolher no momento de sua livre ação.
Nas narrativas míticas dos maias como nos demais mitos, o tema principal é a criação do homem e, pelo princípio do determinismo (destino), todas as vicissitudes humanas são submetidas à vontade e responsabilidade divinas. A ordenação social segue as hierarquias míticas, as quais justificam as diferenças sociais, a organização política, as relações de poder, etc.
b) Incorreta. As poesias de Homero sempre mantiveram a função de educar o homem grego para o pleno exercício da atividade racional que surgiria no século VI a.C., uma vez que, de acordo com historiadores e helenistas, não houve uma ruptura na passagem do mito para o logos, mas sim um processo gradual e contínuo de enraizamento histórico que culminou no advento da filosofia.
As narrativas míticas, fundadas no princípio de responsabilidade derivada das entidades divinas, não podem ser comparadas com as demonstrações científicas, fundadas no princípio de determinação causal (e necessária) dos fenômenos entre si. São duas formas diversas de conhecimento.
d) Incorreta. O mito já era pensamento. Ao formalizar os versos de sua poesia, Homero inaugura uma modalidade literária bem singular no ocidente. As ações dos deuses e dos homens, por exemplo, sempre obedeceram a uma ordem pré-estabelecida, a qual sempre revelou uma lógica racional em funcionamento.
As narrativas míticas dos povos Quiché e dos gregos no período homérico da Grécia Antiga, embora concordem com a busca de um princípio fundante e ordenador (no caso dos gregos, a arché), diferem quanto à natureza do elemento originário. O elemento originário nas narrativas míticas (como nas genealogias de Hesíodo) está na união dos deuses, dos quais derivam por filiação/geração outros deuses e neste processo a constituição do Cosmos. De modo algum, os mitos gregos têm no milho o seu elemento originário.
e) Incorreta. Os mitos tiveram função meramente ilustrativa na educação do homem grego, pois o caráter teórico e abstrato da cultura grega apagou em grande parte os aspectos que se revelariam relevantes na poesia grega.
De modo algum, a Escola de Frankfurt (e outras tradições do pensamento) concebem o Iluminismo como a superação completa do mito. A compreensão mítica da realidade persiste, não obstante o desenvolvimento das formas culturais nas sociedade complexas e avançadas. Aliás, por exemplo, a massificação cultural nas sociedade de capitalismo avançado refletem várias concepções míticas associadas à alienação. Para Adorno e Horkheimer, o mito já era esclarecimento e este recai em uma nova mitologia.