(UEL - 2009)
Leia o texto a seguir e responda à questão.
Texto 1
- Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, a fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldade e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
(PLATÃO. A República. 7. ed. Lisboa: Caiouste GuIbenkian, 1993. p. 318-319.)
O texto é parte do livro VII da República, obra na qual Platão desenvolve o célebre Mito da Caverna. Sobre o Mito da Caverna, é correto afirmar.
I. A caverna iluminada pelo Sol, cuja luz se projeta dentro dela, corresponde ao mundo inteligível, o do conhecimento do verdadeiro ser.
II. Explicita como Platão concebe e estrutura o conhecimento.
III. Manifesta a forma como Platão pensa a política, na medida em que, ao voltar à caverna, aquele que contemplou o bem quer libertar da contemplação das sombras os antigos companheiros.
IV. Apresenta uma concepção de conhecimento estruturada unicamente em fatores circunstanciais e relativistas.
Assinale a alternativa correta.
Somente as afirmativas I e IV são corretas.
Somente as afirmativas II e III são corretas.
Somente as afirmativas III e IV são corretas.
Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
Somente as afirmativas I, II e IV são corretas.
Gabarito:
Somente as afirmativas II e III são corretas.
CORRETAS:
II. Explicita como Platão concebe e estrutura o conhecimento.
A alegoria da caverna é uma expressão da teoria das ideias, a forma como Platão concebe e estrutura o conhecimento.
III. Manifesta a forma como Platão pensa a política, na medida em que, ao voltar à caverna, aquele que contemplou o bem quer libertar da contemplação das sombras os antigos companheiros.
A alegoria da caverna manifesta as ideias do filósofo sobre a política, a partir do seu retorno à caverna para levar o verdadeiro conhecimento aos sujeitos que ainda estão na caverna.
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INCORRETAS:
I. A caverna iluminada pelo Sol, cuja luz se projeta dentro dela, corresponde ao mundo inteligível, o do conhecimento do verdadeiro ser.
A caverna, mesmo iluminada, é o mundo sensível, das sombras. O mundo inteligível, que contém as ideias verdadeiras, é o exterior da caverna, é tudo que está lá fora. É, também, a luz que dá forma às sombras dentro da caverna; as sombras são as ideias verdadeiras distorcidas no mundo sensível.
IV. Apresenta uma concepção de conhecimento estruturada unicamente em fatores circunstanciais e relativistas.
A concepção de conhecimento que o mito da caverna apresenta não se fundamenta exclusivamente em fatores subjetivos, dependentes de circunstâncias e passíveis de relativização. Pelo contrário: os prisioneiros se utilizam dos sentidos para apreender a realidade que eles supõem ser verdadeira, mas que se constitui de ilusão, uma cópia das ideias (as sombras que retratam as imagens do exterior).
A forma de conhecimento que a alegoria apresenta, ilustrada pela libertação de um dos prisioneiros que consegue acessar o exterior, representa o alcance, por meio da razão, do mundo inteligível, transpondo os sentidos. Esse conhecimento, todavia, não é estruturado somente em elementos circunstanciais e relativistas: de acordo com Platão, a razão seria a única forma de acessar o conhecimento verdadeiro, existente na alma e proveniente do mundo inteligível. Seria, então, uma forma de conhecimento precisa, essencial, e não completamente subjetiva.