Texto 1
O milagre das folhas
1 Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? Pois já 5 cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria”. Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas.
10 Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – 15 seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo (sic), capacidade de projetar no alucinatório as imagens inconscientes.
Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de 20 coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando 25 em nada.
Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas 30 transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos 35 cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante.
Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche 40 morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.
LISPECTOR, Clarice. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Organização e introdução. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 186-187
Os dois últimos parágrafos do texto constituem uma sequência
argumentativa, que dá um toque de intelectualidade ao texto.
descritiva, que confere a tonalidade de leveza exigida pelo gênero crônica.
narrativa, que empresta ao texto o cunho do cotidiano, imprescindível para a crônica.
injuntiva (exprime uma ordem), que torna a crônica mais ágil, porque põe as personagens em interação.
Gabarito:
narrativa, que empresta ao texto o cunho do cotidiano, imprescindível para a crônica.
a) Alternativa incorreta. Não há nenhum tipo de argumentação ou tentativa de defender algo que convença o leitor.
b) Alternativa incorreta. O penúltimo parágrafo pode ser considerado como contendo descrições, mas isso não traz nenhum tipo de leveza (isso não é exigido pelo gênero crônica).
c) Alternativa correta. Há a narração, a cadência de eventos, o que aproxima ao texto um cunho cotidiano, realmente presente nos textos de crônica.
d) Alternativa incorreta. Não há nenhum exemplo de injunção (ordem, pedido, conselho, sugestão etc.) nos dois últimos parágrafos.