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Questão 27492

UECE 2015
Português

(UECE - 2015)

O milagre das folhas

1Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes 2isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que só de ouvir falar? 3Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria”. 4Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas.

5Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou 6daqueles que rolam pedras durante séculos, e não 7daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo (sic), capacidade de projetar no alucinatório as imagens inconscientes.

Milagre, não. Mas as coincidências. 8Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.

9Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhões de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-las a mim. 10Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como o mais diminuto diamante.

11Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

12Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

LISPECTOR, Clarice. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Organização e introdução.
As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 186-187.

 

Observe a ocorrência, no texto, de marcadores temporais: “Até que” (ref. 5), “Até que” (ref. 11) e “um dia (uma folha me bateu nos cílios)” (ref. 12). Geralmente esses marcadores, chamados de adjuntos adverbiais, aparecem com mais de um valor semântico. Atente para o que é dito sobre esses marcadores.

I. O da referência 5 tem valor semântico de tempo e de consequência.
II. O da referência 11 é puramente temporal.
III. O da referência 12 acrescenta o valor semântico de tempo ao de condição.

É correto o que se diz em

A

I e II apenas.  

B

I, II e III.  

C

I e III apenas.   

D

II e III apenas.  

Gabarito:

I e II apenas.  



Resolução:

I. Correto. Não só a ideia de tempo, mas também uma ideia de causa e consequência. 
II. Correto. "Um dia" é uma marcação temporal.
III. Incorreto. Não há valor de condição, "um dia" é unicamente temporal.

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