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Questão 23

FUVEST 2022
Português

(FUVEST - 2022 - 1ª fase)

Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno, e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto.

O mal, que fora encubro, ou que desminto,
Dentro no coração é que o sustento:
Com que, para penar é sentimento,
Para não se entender, é labirinto.

Ninguém sufoca a voz nos seus retiros;
Da tempestade é o estrondo efeito:
Lá tem ecos a terra, o mar suspiros.

Mas oh do meu segredo alto conceito!
Pois não me chegam a vir à boca os tiros
Dos combates que vão dentro no peito.

Gregório de Matos e Guerra

No soneto, o eu lírico:

A

expressa um conflito que confirma a imagem pública do poeta, conhecido pelo epíteto de “o Boca do Inferno”.

B

opta por sufocar a própria voz como estratégia apaziguadora de suas perturbações de foro íntimo.

C

explora a censura que o autor sofreu em sua época, ao ser impedido de dar expressão aos seus sentimentos.

D

estabelece, nos tercetos, um contraponto semântico entre as metáforas da natureza e da guerra.

E

revela-se como um ser atormentado, ao mesmo tempo que omite a natureza de seu sofrimento.

Gabarito:

revela-se como um ser atormentado, ao mesmo tempo que omite a natureza de seu sofrimento.



Resolução:

[E]

O eu lírico nesse soneto mostra, ao mesmo tempo, duas faces: uma marcada pela tristeza e pela angústia, e a outra que, diante dessa primeira, insiste na ocultação de tais sentimentos. A tormenta que acomete esse sujeito é paralela à sua necessidade de ocultá-la, como se lê em diversos trechos: 

"Peno, e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto."

A dualidade barroca se explicita nesses versos, em que estão, lado a lado, a consciência da dor e do fingimento. 

Sobre as demais alternativas

a) a alcunha de G. de Matos corresponde à figura de alguém com a "língua solta", que, no oposto desse eu lírico, não tem motivos para reter opiniões e sentimentos, por mais polêmicos e fortes que sejam; 

b) o "autossilenciamento" que o eu lírico revela nesse poema não é uma opção, estando o verbo "opta" incompatível com o conteúdo. Ademais, não se percebe um apaziguamento, e sim um aumento das angústias a partir desse silêncio ("não me chegam a vir à boca os tiros/ Dos combates que vão dentro no peito"); 

c) o poema não trata de uma censura externa e de fundo sociopolítico, e sim de uma "guerra" que se dá dentro do sujeito, em que ele mesmo oprime e silencia seus tormentos. 

d) as metáforas da natureza ("tempestade", "terra" e "mar") e da guerra ("tiros" e "combates") não formam um contraste semântico, visto que reiteram aquilo que acontece no interior do eu. O estrondo da tempestade e o estampido das armas se ouve apenas dentro, mas ecoa tensões externas (suspiros marinhos, terra, guerra) que esse eu tem de enfrentar perante o "segredo".  

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