(FUVEST - 2015 - 2a FASE)
Leia os dois fragmentos abaixo
I. É necessário, pois, aceitar como princípio e ponto de partida o fato de que existe uma hierarquia de raças e civilizações, e que nós pertencemos a raça e civilização superiores, reconhecendo ainda que a superioridade confere direitos, mas, em contrapartida, impõe obrigações estritas. A legitimação básica da conquista de povos nativos é a convicção de nossa superioridade, não simplesmente nossa superioridade mecânica, econômica e militar, mas nossa superioridade moral. Nossa dignidade se baseia nessa qualidade, e ela funda nosso direito de dirigir o resto da humanidade. O poder material é apenas um meio para esse fim.
Declaração do francês Jules Harmand, em 1910. Apud: Edward Said. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Adaptado.
II. (...) apesar das suas diferenças, os ingleses e os franceses viam o Oriente como uma entidade geográfica — e cultural, política, demográfica, sociológica e histórica — sobre cujos destinos eles acreditavam ter um direito tradicional. Para eles, o Oriente não era nenhuma descoberta repentina, mas uma área ao leste da Europa cujo valor principal era definido uniformemente em termos de Europa, mais particularmente em termos que reivindicavam especificamente para a Europa — para a ciência, a erudição, o entendimento e a administração da Europa — o crédito por ter transformado o Oriente naquilo que era.
Edward Said. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
a) Identifique a principal ideia defendida no texto I e explique sua relação com a expansão imperialista europeia no final do século XIX.
b) Relacione o texto I com o texto II, quanto à concepção política neles presente.
Gabarito:
Resolução:
a) O texto retrata a ideia de hierarquia racial, em que os europeus ocupam o topo — o que também pode ser encarado como “darwinismo social”. Essa é a ideia da qual os europeus se utilizavam para acusar organizações sociais distintas às suas de “bárbaras” e para colocar a si próprios como inevitavelmente superiores a elas. Os “bárbaros”, tidos como atrasados em seu desenvolvimento econômico, militar, moral, cultura, etc., precisavam ser dirigidos pelos europeus, superiores, que detinham o “direito de dirigir o resto da humanidade.” A partir disso, justificavam sua interferência “civilizatória” nas outras sociedades, como se fosse uma obrigação intrinsecamente ligada ao suposto status de superioridade, principalmente em termos morais.
b) O primeiro texto apresenta um viés pró-imperialismo, enquanto o segundo é crítico à isso. O texto II aponta que os orientais também contribuíram com o “desenvolvimento humano”, de modo que suas contribuições foram apropriadas pelos europeus, o que contesta a ideia de superioridade expressa no texto I: a Europa reivindicou para si os méritos orientais, sem enxergar o Oriente como um agente próprio e digno de suas contribuições, dado que apenas os europeus seriam os verdadeiramente “superiores”.