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Questão 44

FUVEST 2012
Português

(FUVEST - 2012)

Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra cortar a friagem”. Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros. E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. (...) E o curioso é que, quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos. 

Aluísio Azevedo, O Cortiço

Um traço cultural que decorre da presença da escravidão no Brasil e que está implícito nas considerações do narrador do excerto é

A

desvalorização da mestiçagem brasileira.

B

promoção da música a emblema da nação.

C

desconsideração do valor do trabalho.

D

crença na existência de um caráter nacional brasileiro.

E

tendência ao antilusitanismo.

Gabarito:

desconsideração do valor do trabalho.



Resolução:

A escravidão no Brasil durou três séculos, o que deixou em nosso país algumas marcas que perduram até hoje. Após o fim da escravidão, um ponto que ascendeu na cultura brasileira é a desvalorização do trabalho, expressas em trechos como: “Esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição”; “tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso”; “mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros”; “sua energia afrouxava lentamente”. Isso se deu, pois, por conta da escravidão, o trabalho ficou relacionado àqueles indivíduos escravizados, o que fez com que os homens brancos se negassem a trabalhar. Tudo isso para que, por puro preconceito, não associasse a sua imagem ao dos negros. Dessa maneira, a alternativa correta é a letra [C].

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