(ENEM - 2021)
— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar num troço chamado autoridades constituídas? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada Exército Brasileiro, que o senhor tem de respeitar? Que negócio é esse? [...] Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: "dura lex"! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o General, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor. [...]
Foi então que a mulher do vizinho do General interveio:
— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?
O delegado apenas olhou-a, espantado com o atrevimento.
— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso importunaram o General, ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos importunando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel, e filha de um General! Morou?
Estarrecido, o delegado só teve força para engolir em seco e balbuciar humildemente:
— Da ativa, minha senhora?
SABINO, F. A mulher do vizinho. In: Os melhores contos. Rio de Janeiro: Record, 1986.
A representação do discurso intimidador engendrada no fragmento é responsável por
ironizar atitudes e ideias xenofóbicas.
conferir à narrativa um tom anedótico.
dissimular o ponto de vista do narrador.
acentuar a hostilidade das personagens.
exaltar relações de poder estereotipadas.
Gabarito:
conferir à narrativa um tom anedótico.
A) INCORRETA: quando temos o primeiro interlocutor falando das autoridades e das leis constituídas no país, essa representação não é feita com o intuito de ironizar, mas sim de apresentar um assunto sério à pessoa com que esse interlocutor fala.
B) CORRETA: vemos que de fato há um tom anedótico atribuído nesse excerto, uma vez que, num primeiro momento, o oficial utiliza de um discurso formal militar para impor medo e autoridade no seu interlocutor, o outro soldado e a mulher. No entanto, ao invés do soldado que está ouvindo reagir ao discurso do oficial que fala, é a mulher no recinto que retruca o oficial, utilizando do mesmo discurso que o primeiro fez e até mesmo das mesmas expressões (como em "Morou?") para rebater o oficial. O tom anedótico está no fato do oficial não conseguir intimidar os ouvintes, mas a mulher conseguir intimidar o oficial, fato esse perpetível quando o homem pergunta com receio no final "- Da ativa, minha senhora:
C) INCORRETA: não é observado nesse texto o ponto de vista do narrador, pois, quando não há falas das personagens, o narrador apenas apresenta como que os personagens estão reagindo emocionalmente/psicologicamente às falas um dos outros.
D) INCORRETA: realmente há uma hostilidade das personagens com a fala do discurso intimidador, mas esse não é o objetivo dessas falas. Essas falas intimidadoras querem demonstrar que os personagens desejam impor sua personalidade para o outro.
E) INCORRETA: realmente é estabelecida uma relação entre poderes estereotipados, em que a ideia de ser um oficial militar e os títulos que estão imbuídos nessa ideia são suficientes para fazer com que um ouvinte respeite ou obedece essa sujeito. No entanto, essas relações não são exaltadas, conforme diz a alternativa, mas sim são ironizadas.