(ENEM - 2021)
Singular ocorrência
— Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.
— De preto?
— Justamente, lá vai entrando; entrou.
— Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma recordação de outro tempo, e não há de ser muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.
— Deve ter quarenta e seis anos:
— Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?
— Não
— Bem; o marido ainda vive. É velho?
— Não é casada.
— Solteira?
— Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas, vá excluindo as profissões e chegará lá. Morava na Rua do Sacramento. Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa.
ASSIS. M. Machado de Assis: seus 30 melhores contos. Rio de Janeiro: Aguiar, 1961.
No diálogo, descortinam-se aspectos da condição da mulher em meados do século XIX. O ponto de vista dos personagens manifesta conceitos segundo os quais a mulher
encontra um modo de dignificar-se na prática da caridade.
preserva a aparência jovem conforme seu estilo de vida.
condiciona seu bem-estar à estabilidade do casamento.
tem sua identidade e seu lugar referendados pelo homem.
renuncia à sua participação no mercado de trabalho.
Gabarito:
tem sua identidade e seu lugar referendados pelo homem.
A) INCORRETA, visto que esse aspecto da dignificação pela prática da caridade não é muito explorado no texto, há somente a menção à esmola, que é dada à igreja, não a uma pessoa, como um gesto de caridade.
B) INCORRETA, porque a principal visão que os homens daquela época tinham em relação às mulheres não era a preservação da beleza corporal pelas atitudes que elas tomavam, mas sim o status e o sobrenome de um homem da sociedade que fazia com que elas fossem valorizadas.
C) INCORRETA, considerando que o texto diz que a mulher não é casada.
D) CORRETA, pois em uma das primeiras reações que um dos homens teve ao saber mais da mulher foi perguntar "Está viúva, naturalmente?" Essa inserção do "naturalmente" é como se disesse que é óbvio o fato de todos os atributos positivos serem dados à mulher juntamente por ela estar desamcompanhada ao conhecimento de que a companhia de um homem é a causa de todos esses atributos. Ou seja, a mulher é primeiramente definida pela ideia de um homem que a acompanha, e não pela perspectiva de que sozinha ela obtem todas essas características.
E) INCORRETA, pois não há uma questão sobre o mercado de trabalho sendo realmente trabalhada no diálogo entre os homens.