(ENEM Digital 2020)
(repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que o patrão reclama, avulsas, ouvindo a secretária soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto convulsionamos números (necessário é discá-los todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos, se matando aos poucos estes homens que trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma ao recinto sanitário, tomam pílulas diantes dos próprios rostos, projetados no mictório, findam em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços, sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
GUARNIERI, A. Suplemento Literário de Minas Gerais, n. 1 338, set.-out. 2011.
Ao correlacionar o trabalho humano ao da máquina, o autor vale-se da disposição visual do texto para
expressar a ideia de desumanização e de perda de identidade.
ironizar a realização de tarefas repetitivas e acríticas.
realçar a falta de sentido de atividades burocráticas.
sinalizar a alienação do funcionário de repartição.
destacar a inutilidade do trabalhador moderno.
Gabarito:
expressar a ideia de desumanização e de perda de identidade.
a) Correta. expressar a ideia de desumanização e de perda de identidade.
O texto busca fazer uma analogia da condição humana no contexto capitalista com a imagem de uma máquina, robotizado e mergulhado na rotina do trabalho, e, por isso, desumanizado e sem identidade, impessoal como uma máquina. Isso se dá pela construção de um texto massivo, direto, sem pontuações e marcações rítmicas.
b) Incorreta. ironizar a realização de tarefas repetitivas e acríticas.
Há uma certa ironia no texto acerca da realização de tarefas repetitivas e acríticas, porém não é o intuito principal deste; a abordagem deste tema vale-se para retratar a condição desumana e mecaniscista que o homem se encontra, como uma máquina.
c) Incorreta. realçar a falta de sentido de atividades burocráticas.
Novamente, há sim uma dimensão da falta de sentido em atividades que demandam uma pura burocracia robótica, porém não é o intuito do texto relatar isso, mas aborda a ausência de sentido das atividades burocráticas no contexto da desumanização do ser humano na contemporaneidade.
d) Incorreta. sinalizar a alienação do funcionário de repartição.
Outra alternativa que enfoca um tema parcial do texto, pois há sim uma dimensão da alienação do funcionário de repartição, mas não é o intuito do texto relatar isso, porém traz essa questão como parte da desumanização do ser humano na contemporaneidade.
e) Incorreta. destacar a inutilidade do trabalhador moderno.
Não há intuito algum em destacar a inutilidade do trabalhador moderno, pois o seu trabalho não é tomado como inútil.