(ENEM PPL - 2019)
A máquina extraviada
Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou — não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas — quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos. [...]
Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal. [...] Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso — aqui para nós — eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu — e creio que também a grande maioria dos munícipes — não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando.
VEIGA, J. J. A máquina extraviada: contos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
Qual procedimento composicional caracteriza a construção do texto?
As intervenções explicativas do narrador.
A descrição de uma situação hipotética.
As referências à crendice popular.
A objetividade irônica do relato.
As marcas de interlocução.
Gabarito:
As marcas de interlocução.
O texto “A máquina extraviada”, de José J. Veiga, se trata de uma carta pessoal.
A) INCORRETA: intervenções do autor não são características típicas de uma carta, mas de outro gênero, um artigo de opinião.
B) INCORRETA: descrever uma situação hipotética não é características de uma carta, mas, pelo contrário, são utilizados fatos certos acontecimentos que ocorreram.
C) INCORRETA: recorrer à crendice não é uma característica do gênero carta, mas é comum de ocorrer em gêneros de narrativas populares, como a contação de histórias.
D) INCORRETA: não característica unânime que os escritores de cartas pessoais sejam objetivos e irônicos. Na maioria das cartas pessoais, seus escritores colcam impressões pessoais e sem utilizarem da ironia.
E) CORRETA: Um dos procedimentos composicionais clássicos na construção do gênero textual carta é a interlocução direta, ou seja, falar diretamente com o leitor da carta (reconhecer o interlocutor). As marcas de interlocução neste trecho estão presentes em trechos como “Você sempre pergunta pelas novidades (...)” e “Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, (...)”.