(ENEM - 2019 - PROVA AMARELA)
Ela nasceu lesma, vivia no meio das lesmas, mas não estava satisfeita com sua condição. Não passamos de criaturas desprezadas, queixava-se. Só somos conhecidas por nossa lentidão. O rastro que deixaremos na História será tão desprezível quanto a gosma que marca nossa passagem pelos pavimentos.
A esta frustração correspondia um sonho: a lesma queria ser como aquele parente distante, o escargot. O simples nome já a deixava fascinada: um termo francês, elegante, sofisticado, um termo que as pessoas pronunciavam com respeito e até com admiração. Mas, lembravam as outras lesmas, os escargots são comidos, enquanto nós pelo menos temos chance de sobreviver. Este argumento não convencia a insatisfeita lesma, ao contrário: preferiria exatamente terminar sua vida desta maneira, numa mesa de toalha adamascada, entre talheres de prata e cálices de cristal. Assim como o mar é o único túmulo digno de um almirante batavo, respondia, a travessa de porcelana é a única lápide digna dos meus sonhos.
SCLIAR, M. Sonho de lesma. In: ABREU, C. F. et. al. A prosa do mundo. São Paulo: Global, 2009.
Incorporando o devaneio da personagem, o narrador compõe uma alegoria que representa o anseio de
rejeitar metas de superação de desafios.
restaurar o estado de felicidade pregressa.
materializar expectativas de natureza utópica.
rivalizar com indivíduos de condição privilegiada.
valorizar as experiências hedonistas do presente.
Gabarito:
materializar expectativas de natureza utópica.
A) INCORRETA: já que não há uma rejeição de metas de superação de desafios, algo ressaltado pelo trecho: "Ela nasceu lesma, vivia no meio das lesmas, mas não estava satisfeita com sua condição." Nesse sentido, podemos interpretar que a lesma insatisfeita via como desafio principal de sua vida ser tratada como um escargot, pois ela via esse rótulo e a possibilidade de morrer comida em uma mesa chique como algo a ser almejado.
B) INCORRETA: pois não se pode dizer que a lesma queria retornar a uma "felicidade pregressa", ou seja, uma felicidade que ela teve antes daquele tempo. No entanto, o fato da lesma querer ser um escargot não é restaurar algo que havia antes, mas sim se tornar algo diferente do que a lesma é. Nós sabemos disso porque o próprio texto nos diz que "a lesma queria ser como aquele parente distante, o escargot", isto é, a lesma queria ser um parente mais sofisticado, algo que ela nunca foi. Logo, o desejo dela é de se tornar mais valiosa, um valor que ela não tem nem agora nem antes.
C) CORRETA: No devaneio da personagem lesma, o narrador compõe um alegoria que materializa expectativas utópicas: a lesma deseja ser escargot e morrer em uma situação considerada elegante, pomposa. Este argumento não convencia a insatisfeita lesma, ao contrário: preferiria exatamente terminar sua vida desta maneira, numa mesa de toalha adamascada, entre talheres de prata e cálices de cristal. Assim como o mar é o único túmulo digno de um almirante batavo, respondia, a travessa de porcelana é a única lápide digna dos meus sonhos.
D) INCORRETA: pois não existe uma rivalização e sim uma aspiração de ser uma lesma privilegiada, como um escargot. O texto todo é narrado por um narrador observador, que fala sobre a lesma na terceira pessoa, porém, na útlima frase ele incorpora o pensamento da lesma, passando a falar na primeira pessoa, algo demonstrado por "a travessa de porcelana é a única lápide digna dos meus sonhos". Ou seja, o narrador passou a ser a própria lesma nessa última frase.
E) INCORRETA: isso porque "valorizar as experiências hedonistas do presente" seria como "priorizar a felicidade no agora", o que a lesma, protagonista do conto, não faz. Ela sonha com a utopia de ser um escargot e se mostra constantemente insatisfeita com o presente por conta disso.