(ENEM - 2019 - PROVA AMARELA)
Os subúrbios do Rio de Janeiro foram a primeira coisa a aparecer no mundo, antes mesmo dos vulcões e dos cachalotes, antes de Portugal invadir, antes do Getúlio Vargas mandar construir casas populares. O bairro do Queím, onde nasci e cresci, é um deles. Aconchegado entre o Engenho Novo e Andaraí, foi feito daquela argila primordial, que se aglutinou em diversos formatos: cães soltos, moscas e morros, uma estação de trem, amendoeiras e barracos e sobrados, botecos e arsenais de guerra, armarinhos e bancas de jogo do bicho e um terreno enorme reservado para o cemitério. Mas tudo ainda estava vazio: faltava gente.
Não demorou. As ruas juntaram tanta poeira que o homem não teve escolha a não ser passar a existir para varrê-las. À tardinha, sentar na varanda das casas e reclamar da pobreza, falar mal dos outros e olhar para as calçadas encardidas de sol, os ônibus da volta do trabalho sujando tudo de novo.
HERINGER, V. O amor dos homens avulsos. São Paulo: Cia. das Letras, 2016.
Traçando a gênese simbólica de sua cidade, o narrador imprime ao texto um sentido estético fundamentado na
excentricidade dos bairros cariocas de sua infância.
perspectiva caricata da paisagem de traços deteriorados.
importância dos fatos relacionados à história dos subúrbios.
diversidade dos tipos humanos identificados por seus hábitos.
experiência do cotidiano marcado pelas necessidades e urgências.
Gabarito:
perspectiva caricata da paisagem de traços deteriorados.
A) INCORRETA: O autor, ao contrário de ressaltar particularidades ("excentricidades") de seu bairro da infância, revela uma espécie de unificação do "subúrbio", com uma série de características sociais, humanas, afetivas e estruturais semelhantes às de outros "bairros" suburbanos. As características elencadas são comuns, populares no quadro urbano do Rio de Janeiro em diversas regiões, como vemos na ideia de que todas se formam da mesma "argila".
B) CORRETA: O trecho de referência fundamenta-se nas imagens de forma caricatural, que se observam na descrição irônica da paisagem do próprio bairro, como é observado no uso de termos como “moscas”, “barracos” e “botecos”. Esse estilo estigmatizado indica a precariedade e condições paupérrimas desse bairro localizado em zona de vulnerabilidade social.
C) INCORRETA: a importância não está majoritariamente nos fatos que foram traçados, mas sim na imagem do subúrbio, uma região que nasceu antes de tudo nascer. Os fatos vão apenas autentificar (ou não) que aquilo que está sendo dito é verdadeiro.
D) INCORRETA: não é falado dos tipos dos seres humanos, mas o texto apresenta apenas uma imagem do ser humano: aquele que estará varrendo as ruas, reclama da pobreza, fala mal dos outros, etc.
E) INCORRETA: porque a experiência do cotidiano não é marcada pelos elementos que relatam urgência e necessidade. Na verdade, essa experiência é marcada pela imagem que o autor faz da região ao seu redor ("cães soltos, moscas e morros, uma estação de trem, amendoeiras e barracos e sobrados, botecos e arsenais de guerra, armarinhos e bancas de jogo do bicho e um terreno enorme reservado para o cemitério"), imagens que não necessariamente são de urgência ou necessidade, mas que representam a realidade, ainda que essa realidade seja deteriorada, diferente das imagens presentes em outras obras literárias, que indicam algo mais idealizado.