(ENEM PPL - 2018)
Qualquer que tivesse sido o seu trabalho anterior, ele o abandonara, mudara de profissão e passara pesadamente a ensinar no curso primário: era tudo o que sabíamos dele.
O professor era gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos. Em vez de nó na garganta, tinha ombros contraídos. Usava paletó curto demais, óculos sem aro, com um fio de ouro encimando o nariz grosso e romano. E eu era atraída por ele. Não amor, mas atraída pelo seu silêncio e pela controlada impaciência que ele tinha em nos ensinar e que, ofendida, eu adivinhara. Passei a me comportar mal na sala. Falava muito alto, mexia com os colegas, interrompia a lição com piadinhas, até que ele dizia, vermelho:
— Cale-se ou expulso a senhora da sala.
Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu o exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser objeto do ódio daquele homem que de certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos.
LISPECTOR, C. Os desastres de Sofia. In: A legião estrangeira. São Paulo: Ática, 1997.
Entre os elementos constitutivos dos gêneros está a sua própria estrutura composicional, que pode apresentar um ou mais tipos textuais, considerando-se o objetivo do autor. Nesse fragmento, a sequência textual que caracteriza o gênero conto é a
expositiva, em que se apresentam as razões da atitude provocativa da aluna.
injuntiva, em que se busca demonstrar uma ordem dada pelo professor à aluna.
descritiva, em que se constrói a imagem do professor com base nos sentidos da narradora.
argumentativa, em que se defende a opinião da enunciadora sobre o personagem-professor.
narrativa, em que se contam fatos ocorridos com o professor e a aluna em certo tempo e lugar.
Gabarito:
narrativa, em que se contam fatos ocorridos com o professor e a aluna em certo tempo e lugar.
[E]
Comentário das alternativas
a) INCORRETA. A tipologia expositiva não se aplica adequadamente a textos ficcionais, de narração, pois a intenção primordial não é encadear ideias, expor fatos, mas sim produzir arte (que pode envolver reflexão, filosofia, psicologia, etc) com a palavra;
b) INCORRETA. O interesse central do texto de Lispector não é o convencimento ou o diálogo direto com um interlocutor, em busca de incitá-lo ou instruí-lo na tomada de determinada atitude. A narração não tem esse interesse no plano de sua linguagem;
c) INCORRETA. Ainda que exista descrição no texto, não é isso que permite associá-lo ao gênero conto, cujo teor é essencialmente narrativo - uma vez que a ênfase está no desenrolar breve de uma ação ou estado.
d) INCORRETA. A narradora não apresenta argumentos, e esse tipo de texto não é compatível com o gênero conto. Não há intenção de argumentar como em uma tese ou artigo, mas sim de contar determinada situação ficcional.
e) CORRETA. Os contos se caracterizam por ser textos narrativos, onde o foco é contar um episódio do cotidiano ou algo fantástico. A presença de fatos (enredo), tempo e lugar marcam os pilares estruturais do gênero conto, que pertence à tipologia textual narrativa.