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Questão 34

ENEM 2018
Português

(ENEM - 2018 - PROVA AMARELA)

Quebranto

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

[...]

às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno
começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto em que me entrego.

às vezes!...

CUTI. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza. 2007 (fragmento).

Na literatura de temática negra produzida no Brasil, é recorrente a presença de elementos que traduzem experiências históricas de preconceito e violência. No poema, essa vivência revela que o eu lírico 

A

incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.

B

submete-se à discriminação como meio de fortalecimento.

C

engaja-se na denúncia do passado de opressão e injustiças.

D

sofre uma perda de identidade e de noção de pertencimento.

E

acredita esporadicamente na utopia de uma sociedade igualitária.

Gabarito:

incorpora seletivamente o discurso do seu opressor.



Resolução:

A) CORRETA: Nota-se, ao longo do poema, que há um conflito de olhares com relação a um eu lírico (negro) e as posturas que ele adota diante de si mesmo. Os versos revelam que a discriminação chega a tal ponto que o próprio oprimido incorpora o discurso de seu opressor. Isso é usado nos versos de Cuti como forma de reflexão e protesto contra as práticas estruturais de racismo. Os versos: "às vezes sou o policial que me suspeito/ me peço documentos" [...] às vezes sou o porteiro/ não me deixando entrar em mim mesmo [...] o dedo que me aponto/ e denuncio/ o ponto em que me entrego." revelam essa incorporação seletiva e crítica do discurso opressor pela psicologia do oprimido.

B) INCORRETA: como o eu lírico está falando consigo próprio, não podemos observar uma discriminação, mas a falta de cuidado que ele teve consigo mesmo, ocasionando na autocrítica e na autosabotagem.

C) INCORRETA: não é feita uma denúncia de um passado de opressão, mas a construção que é feita do poema demonstra ações e atitudes presentes que são apenas relatadas como fatos da vida do eu lírico.

D) INCORRETA: mesmo que o eu lírico "troque de pele", ocupando psicologicamente o lugar de seu opressor, ele está sempre consciente da sua própria identidade. A própria reação que ele tem diante de si ao incorporar o discurso da violência revela que o poema é, na verdade, uma afirmação do lugar que esse eu lírico ocupa, bem como de suas angústias e críticas relacionadas a essa realidade. A reiteração do pronome "me" e dessas relações simuladas revelam essa interpretação, em que o olhar externo permite reforçar a identidade interna.

E) INCORRETA: pois essa tópica não é visível no texto, uma vez que o foco do poema é o próprio autor e o modo como ele trata a si mesmo.

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