(ENEM - 2018 - PROVA AMARELA)
Vó Clarissa deixou cair os talheres no prato, fazendo a porcelana estalar. Joaquim, meu primo, continuava com o queixo suspenso, batendo com o garfo nos lábios, esperando a resposta. Beatriz ecoou a palavra como pergunta, “o que é lésbica?”. Eu fiquei muda. Joaquim sabia sobre mim e me entregaria para a vó e, mais tarde, para toda a família. Senti um calor letal subir pelo meu pescoço e me doer atrás das orelhas. Previ a cena: vó, a senhora é lésbica? Porque a Joana é. A vergonha estava na minha cara e me denunciava antes mesmo da delação. Apertei os olhos e contrai o peito, esperando o tiro. [...]
[...] Pensei na naturalidade com que Tais e eu levávamos a nossa história. Pensei na minha insegurança de contar isso à minha família, pensei em todos os colegas e professores que já sabiam, fechei os olhos e vi a boca da minha vó e a boca da tia Carolina se tocando, apesar de todos os impedimentos. Eu quis saber mais, eu quis saber tudo, mas não consegui perguntar.
POLESSO, N. B. Vó, a senhora é lésbica? Amora. Porto Alegre: Não Editora. 2015 (fragmento).
A situação narrada revela uma tensão fundamentada na perspectiva do
conflito com os interesses de poder.
silêncio em nome do equilíbrio familiar.
medo instaurado pelas ameaças de punição.
choque imposto pela distância entre as gerações.
apego aos protocolos de conduta segundo os gêneros.
Gabarito:
silêncio em nome do equilíbrio familiar.
A) INCORRETA: não há nenhum indicativo de que se trata de um conflito de interesse de poder, mas sim um conflito de gerações, de aceitação, de compreensão.
B) CORRETA: “Senti um calor letal subir pelo meu pescoço e me doer atrás das orelhas.” (...) “A vergonha estava na minha cara e me denunciava antes mesmo da delação.” (...) “Pensei na minha insegurança de contar isso à minha família (...)”. A tensão da narradora decorre do "segredo": sua orientação sexual. Esse silêncio mantinha uma estabilidade familiar que, no trecho em questão, é quebrada. A descrição das sensações, a progressão em direção a um clímax e o "fluxo" de pensamentos revelam a perspectiva do desequilíbrio.
C) INCORRETA: Não há, no trecho, algo que evidencie "ameaças de punição". A narradora-personagem relata, sim, certo medo e insegurança diante da revelação acerca de sua sexualidade, mas isso não é alimentado por uma perspectiva de castigo ou ameaça. A insegurança advém do julgamento ou da necessidade de explicações, que levaria ao desnudamento da orientação sexual homoafetiva até então desconhecida por grande parte dos envolvidos
D) INCORRETA: porque o choque de gerações (avó e neta) é um respaldo para o contexto estabelecido na narrativa, mas não é considerado como o ponto de tensão
E) INCORRETA: considerando que Joana é uma mulher lésbica, é inviável afirmar que ela tem "apego" pelos protocolos - uma vez que são eles que determinam toda a sua angústia diante da família. Além disso, a questão levantada está bem mais associada à questão da sexualidade e orientação sexual que propriamente uma expectativa ligada ao gênero (no qual a narradora, aparentemente, se enquadra sem grandes conflitos).