(ENEM - 2018 - PROVA AMARELA)
Somente uns tufos secos de capim empedrados crescem na silenciosa baixada que se perde de vista. Somente uma árvore, grande e esgalhada mas com pouquíssimas folhas, abre-se em farrapos de sombra. Único ser nas cercanias, a mulher é magra, ossuda, seu rosto está lanhado de vento. Não se vê o cabelo, coberto por um pano desidratado. Mas seus olhos, a boca, a pele - tudo é de uma aridez sufocante. Ela está de pé. A seu lado está uma pedra. O sol explode.
Ela estava de pé no fim do mundo. Como se andasse para aquela baixada largando para trás suas noções de si mesma. Desapossada e despojada, não se abate em auto acusações e remorsos. Vive.
Sua sombra somente é que lhe faz companhia. Sua sombra, que se derrama em traços grossos na areia, é que adoça como um gesto a claridade esquelética. A mulher esvaziada emudece, se dessangra, se cristaliza, se mineraliza. Já é quase de pedra como a pedra a seu lado. Mas os traços de sua sombra caminham e, tomando-se mais longos e finos, esticam-se para os farrapos de sombra da ossatura da árvore, com os quais se enlaçam.
FROÉS, L. Vertigens: obra reunida. Rio de Janeiro: Rocco, 1998
Na apresentação da paisagem e da personagem, o narrador estabelece uma correlação de sentidos em que esses elementos se entrelaçam. Nesse processo, a condição humana figura-se
amalgamada pelo processo comum de desertificação e de solidão.
fortalecida pela adversidade extensiva à terra e seres vivos.
redimensionada pela intensidade da luz e da exuberância local.
imersa num drama existencial de identidade e de origem.
imobilizada pela escassez e pela opressão do ambiente.
Gabarito:
amalgamada pelo processo comum de desertificação e de solidão.
A) CORRETA: pois a condição humana encontra-se amalgamada (misturada) à paisagem, uma vez que a descrição da personagem e a descrição da paisagem se misturam, como no trecho:“A mulher esvaziada emudece, se dessangra, se cristaliza, se mineraliza. Já é quase de pedra como a pedra a seu lado. Mas os traços de sua sombra caminham e, tornando-se mais longos e finos, esticam-se para os farrapos de sombra da ossatura da árvore, com os quais se enlaçam”, sendo assim, invalida as demais alternativas da questão.
B) INCORRETA: a natureza não aparece como fonte de empoderamento e fortaleza, mas sim de angústia, desaparecimento e petrificação. A condição humana, no texto, é nula ao se igualar à materialidade do deserto. A caracterização dada à mulher na sua semelhança com a natureza não é a de fortaleza, mas sim de extrema desumanização e desaparecimento. Expressões como: "magra, ossuda, [...] rosto lanhado de vento", "aridez sufocante", "largando para trás suas noções de si mesma", "claridade esquelética", "A mulher esvaziada emudece, se dessangra, se cristaliza" revelam, no texto, esse caráter debilitador.
C) INCORRETA: pois a construção da natureza do local não nos leva a inferir que há um redimensionamento pela intensidade da luz e da exuberância do local, mas sim uma construção um pouco mais grotesca, em que os elementos naturais são construídos de tal modo a criar um cenário tendendo ao macabro.
D) INCORRETA: Percebe-se que no texto descreve uma mulher muito magra,“desapossada e despojada” que está “largando para trás sua noções de si mesma”.Essa simbologia é colocada em uma paisagem de “tufos secos de capim empedrados” e com uma única árvore “esgalhada mas com pouquíssimas folhas”.Há um outro trecho que evidencia essa constatação "Sua sombra somente é que lhe faz companhia. Sua sombra, que se derrama em traços grossos na areia, é que adoça como um gesto a claridade esquelética.
E) INCORRETA: pois é incorreto afirmar sobre a imobilidade, a inércia. O que se observa no texto, diferentemente, é um estado humano em bruta transformação, ou seja, uma figura que vai, em um processo gradual (e gradualmente descrito), perdendo sua própria humanidade. A figura humana, materialização de dada "condição", é uma figura andarilha, que, ainda que lentamente, traça um percurso que a vai incorporando dinamicamente à paisagem deserta e desolada. O ambiente é, de fato, hostil e opressor - mas isso não gera imobilidade, e sim transformação ("A mulher esvaziada emudece, se dessangra, se cristaliza, se mineraliza.").