(ENEM - 2018)
O filósofo reconhece-se pela posse inseparável do gosto da evidência e do sentido da ambiguidade. Quando se limita a suportar a ambiguidade, esta se chama equívoco. Sempre aconteceu que, mesmo aqueles que pretenderam construir uma filosofia absolutamente positiva, só conseguiram ser filósofos na medida em que, simultaneamente, se recusaram o direito de se instalar no saber absoluto. O que caracteriza o filósofo é o movimento que leva incessantemente do saber à ignorância, da ignorância ao saber, e um certo repouso neste movimento.
MERLEAU-PONTY, M. Elogio da filosofia.
Lisboa; Guimarães, 1998 (adaptado).
O texto apresenta um entendimento acerca dos elementos constitutivos da atividade do filósofo, que se caracteriza por
reunir os antagonismos das opiniões ao método dialético.
ajustar a clareza do conhecimento ao inatismo das ideias.
associar a certeza do intelecto à imutabilidade da verdade.
conciliar o rigor da investigação à inquietude do questionamento.
compatibilizar as estruturas do pensamento aos princípios fundamentais.
Gabarito:
conciliar o rigor da investigação à inquietude do questionamento.
a) Incorreta. reunir os antagonismos das opiniões ao método dialético.
Essa perspectiva é, em parte, abordada na filosofia hegeliana, que consiste em unir noções antagônicas e elaborar uma nova síntese a partir destas, a dialética. Não é o que Merleau-Ponty traz, pois o filósofo não reune os antagonismos de opiniões diferentes, mas duas distintas disposções de condição para o conhecimento, a ignorância e o saber.
b) Incorreta. ajustar a clareza do conhecimento ao inatismo das ideias.
Essa noção é advinda do racionalismo e não é compartilhada pelo filósofo, tampouco abordada no trecho.
c) Incorreta. associar a certeza do intelecto à imutabilidade da verdade.
No trecho, não se pode dizer que Merleau-Ponty toma a verdade como absoluta e imutável.
d) Correta. conciliar o rigor da investigação à inquietude do questionamento.
O texto, de um pensador contemporâneo, discute sobre a essência da atividade filosófica; fazendo, concomitantemente, uma crítica às posições positivistas e dogmáticas do saber filosófico. Segundo o autor, o filósofo é o sujeito que se posiciona num circuito entre a ignorância e o saber - como se pudéssemos fazer uma menção à afirmação socrática que diz que ‘sábio não é aquele que reconhece o que sabe, mas sim, aquele que reconhece os limites da própria ignorância’. De modo que o questionamento, sempre pulsante, deve ser justamente o que proporciona o movimento do pensar: a dúvida e a resposta, componentes da reflexão filosófica.
e) Incorreta. compatibilizar as estruturas do pensamento aos princípios fundamentais.
Não há qualquer menção dessa ideia no texto.