(ENEM PPL - 2016)
Maria Diamba
Para não apanhar mais
falou que sabia fazer bolos:
virou cozinha.
Foi outras coisas para que tinha jeito.
Não falou mais:
Viram que sabia fazer tudo,
até molecas para a Casa-Grande.
Depois falou só,
só diante da ventania
que ainda vem do Sudão;
falou que queria fugir
dos senhores e das judiarias deste mundo
para o sumidouro.
LIMA, J. Poemas negros. Rio de Janeiro: Record, 2007.
O poema de Jorge de Lima sintetiza o percurso de vida de Maria Diamba e sua reação ao sistema opressivo da escravidão. A resistência dessa figura feminina é assinalada no texto pela relação que se faz entre
o uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino.
a exploração sexual e a geração de novas escravas.
a prática na cozinha e a intenção de ascender socialmente.
o prazer de sentir os ventos e a esperança de voltar à África.
o medo da morte e a vontade de fugir da violência dos brancos.
Gabarito:
o uso da fala e o desejo de decidir o próprio destino.
a) CORRETA, uma vez que há uma relação entre as situações de fala e a persistência diante do próprio destino. Primeiramente, ao falar que sabia cozinhar, Diamba se torna cozinheira; depois, ao não falar, conseguiu manter uma relativa segurança na casa senhorial; e enfim, ao confessar aos ventos do Sudão sua vontade de fugir, a reflexão sobre seu futuro, que parece apontar para uma determinação;
b) INCORRETA, uma vez que a exploração sexual não denota a resistência da personagem do poema, e sim uma das vitórias do sistema de opressão escravocrata, que violava o corpo das mulheres negras tanto na senzala como na casa grande;
c) INCORRETA, pois o exercício da cozinha não foi um meio de ascensão social, e sim de fuga às torturas físicas. Não havia, para escravos e escravas, a possibilidade real de ascender socialmente, mas sim de mitigar parte de seu sofrimento por meio da assimilação de tarefas menos hostis, e mais próximas à vida senhorial;
d) INCORRETA, já que não há uma representação de prazer diante da ventania, e sim de melancolia e saudade. O desejo explícito da escrava não é o de regressar à mãe África, e sim o de "sumir" do mundo e de suas injustiças;
e) INCORRETA, visto que, mesmo havendo um desejo de fuga ("falou que queria fugir"), o medo não provém da morte, e sim da vida. A maior aflição de Diamba são os "senhores e as judiarias deste mundo", das quais ela quer fugir para o "sumidouro" — metáfora para morte. Não há, em suma, um medo de morrer, e sim um desejo por esse sumiço.