(ENEM - 2016)
De domingo
– Outrossim...
– O quê?
– O que o quê?
– O que você disse.
– Outrossim?
– É.
– O que é que tem?
– Nada. Só achei engraçado.
– Não vejo a graça.
– Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias.
– Ah, não é. Aliás, eu só uso domingo.
– Se bem que parece mais uma palavra de segunda-feira.
– Não. Palavra de segunda-feira é “óbice”.
– “Ônus”.
– “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquício”.
– “Resquício” é de domingo.
– Não, não. Segunda. No máximo terça.
– Mas “outrossim”, francamente...
– Qual o problema?
– Retira o “outrossim”.
– Não retiro. É uma ótima palavra. Aliás é uma palavra difícil de usar. Não é qualquer um
que usa “outrossim”.
VERISSIMO, L. F. Comédias da vida privada. Porto Alegre: L&PM, 1996 (fragmento).
No texto, há uma discussão sobre o uso de algumas palavras da língua portuguesa. Esse uso promove o(a)
marcação temporal, evidenciada pela presença de palavras indicativas dos dias da semana.
tom humorístico, ocasionado pela ocorrência de palavras empregadas em contextos formais.
caracterização da identidade linguística dos interlocutores, percebida pela recorrência de palavras regionais.
distanciamento entre os interlocutores, provocado pelo emprego de palavras com significados pouco conhecidos.
inadequação vocabular, demonstrada pela seleção de palavras desconhecidas por parte de um dos interlocutores do diálogo.
Gabarito:
tom humorístico, ocasionado pela ocorrência de palavras empregadas em contextos formais.
A) INCORRETA: uma vez que a variação linguística não está indicando a localização dos eventos no tempo ficcional, ou seja, a utilização de uma variação caipira não está indicando a ordem que os eventos ocorreram, na verdade essa função é desempenhada por outros elementos, como os tempos verbais.
B) CORRETA: a ênfase dada à variação linguística são colocados estratégicamente próximos de frases que justamente deixam claro o local onde a narrativa se passa, que é a roça, retomada por meio de elementos como o fogão a lenha. Então a utilização dessa variação linguística nestes pontos específicos do texto contribui para que o leitor realmente acredite que tudo de passa na roça.
C) INCORRETA: tem dois problemas: primeiro é dizer que há um diálogo, algo que não pode ser comprovado, já que o diálogo pressupõe a participação de dois ou mais interlocutores e nesse trecho há apenas a presença de um eu lírico, que está falando para o grande público, não alguém específico. Além disso, há a questão de que não necessariamente um diálogo apresenta gírias, existem diálogos formais, sem a utilização de gírias, nesse sentido está errado o que a alternativa propõe.
D) INCORRETA: Não é possível, pelas informações da crônica, afirmar que um dos interlocutores desconhece a palavra "outrossim". A fala "Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias", seguida de comentários sobre outras palavras de semelhante "complexidade" mostra, na verdade, que os dois interlocutores compartilham certos códigos e percepções a respeito da linguagem. O mesmo personagem que ri da palavra "outrossim", tece comentários sobre "ônus", "resquício", mostrando esse pareamento intelectual que não afasta, mas humoristicamente aproxima os interlocutores na sua percepção inusitada do uso de vocábulos raros do português associados a dias da semana.
E) INCORRETA: pois o uso de palavras do âmbito formal não é desconhecido por nenhum das partes, pois, quando ums dos interlocutores pergunta sobre a palavra utilizada, o outro pergunta "– O que é que tem?" e ele responde "– Nada. Só achei engraçado."